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Cestas básicas e a insegurança alimentar nas aldeias

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A crise do COVID-19, pode ser, uma oportunidade para pensar e repensar sobre a segurança e soberania alimentar das nossas aldeias. Começo a minha reflexão a partir da observação de pedidos por cestas básicas que estão pipocando para todos os lados, vejamos que não estou apontando o dedo para essa ou aquela etnia. Quero chamar atenção para a insegurança alimentar e nutricional das aldeias, ou seja, dos indígenas ditos “aldeados” que vivem em um território, pois existem os indígenas chamados “desaldeados” por esses viverem no contexto urbano.

 

Talvez, seja, até uma visão equivocada sobre as famigeradas “cestas básicas” diante da situação catastrófica que se configura no momento. Entretanto, o que pode significar este pedido de socorro por itens de alimentação básica? Uma das respostas possíveis é da dependência por alimentos provenientes da cidade. Em que medida, nós, indígenas, que estamos nas aldeias estamos dependentes de produtos provenientes da cidade? O que acontece? Será que existe o abandono das práticas de plantio da biodiversidade alimentar? Ou, o que é plantado é insuficiente para suprir a carência por alimentos? Como se obteve alimentos nas aldeias, antes desse cenário catastrófico?

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É, facilmente, compreensível que aqueles que estão no contexto urbano, diante da crise, não tem onde prover alimentos, existindo somente a opção de ir ao supermercado. Pois, não possuem espaço para plantar, pescar, caçar, coletar, criar animais e outros. É uma realidade muito diferente das aldeias, dos territórios. Eu, sempre digo que quem está na aldeia não passa fome ou ao menos não deveria passar fome.

 

Por outro lado, podemos considerar que nos territórios e nas aldeias a realidade é diversa daquela vivenciada por nossos ancestrais com tecnologia sobre o plantio que eles conheciam. O tempo é outro, na atualidade temos as mudanças climáticas que impactam o solo, as plantações e outros agravantes, como, por exemplo, em algumas regiões existem a falta de água. 

 

Na atualidade precisamos, sim, de correção de solo, sistemas de irrigação, equipamentos para o plantio. Situação que faz com que a autonomia alimentar das comunidades fique mais distante por falta de assistência técnica e insumos agrícolas. Lembrando que “A essência da soberania alimentar reside em “poder decidir”: que os agricultores possam decidir o que cultivam, que tenham acesso à terra, à água, às sementes, e que os consumidores tenhamos toda a informação sobre o que consumimos, que possamos saber quando um alimento é transgênico ou não.” Certamente, o poder de decidir sobre o que comemos se esvai lentamente ou de maneira abrupta diante das adversidades que se impõe. A insegurança alimentar se instala mais ainda quando é abandonado a prática de cultivo de plantas que alimentam. 

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Os analistas desenham cenários posteriores ao COVID-19 e não são nada animadores. Eles falam em crise do sistema financeiro, colapso do capitalismo, mesmo quem tem dinheiro para comprar alimentos não irá encontrá-los… Sim, é um tanto pessimista.

 

Por vias das dúvidas, talvez, seja prudente, nós nos voltarmos para o plantio de alimentos em nossos territórios. A cultura oriental diz que na crise devemos criar. Que possamos criar estratégias de obtenção de alimentos para as famílias sem nos tornamos totalmente dependemos itens alimentícios da cidade.

 

Isabel Taukane é do povo indígena Kura-Bakairi

Mestre em Desenvolvimento Sustentável pela UnB

Doutora em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT

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