
Após anos de queda na cobertura vacinal, Mato Grosso apresentou sinais de recuperação em 2023, mas ainda não atingiu as metas do Programa Nacional de Imunizações (PNI). É o que aponta o Anuário VacinaBR 2025, divulgado nesta terça-feira (17.06) pelo Instituto Questão de Ciência (IQC), com apoio da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e do UNICEF. O relatório reúne dados de vacinação entre 2000 e 2023 e mostra que várias das vacinas analisadas não atingiram os 95% de cobertura preconizada pelo Ministério da Saúde.
A situação é mais crítica quando se observa o abandono vacinal. A vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, teve 92,2% de cobertura na primeira dose em Mato Grosso, mas caiu para 47,7% na segunda. A evasão entre as doses compromete a proteção coletiva e eleva o risco de reintrodução de doenças já controladas, conforme os especialistas que assinam o estudo. Em 2013, em comparação, a primeira dose da tríplice viral chegou a 107,4% de cobertura, evidenciando a queda nos últimos dez anos.
Outro imunizante importante, a vacina pneumocócica 10-valente (VPC-10), que protege contra formas graves de pneumonia, teve boa cobertura em 2023 (90,7%), mas ainda aquém da meta. A série histórica mostra oscilação: o melhor desempenho foi em 2016, com mais de 100% de cobertura, índice que pode refletir atualização de cadastros ou vacinação de crianças fora da faixa etária alvo. Após queda em 2021 (82,2%), os números voltaram a subir, mas não de forma homogênea.
A vacinação contra difteria, tétano e coqueluche também enfrenta desafios. Em 2023, Mato Grosso alcançou 94,7% de cobertura na primeira dose da vacina pentavalente, mas o índice caiu para 86,6% na terceira dose. A cobertura nos reforços é ainda mais baixa: 78,6% no primeiro e 81,9% no segundo. Já a vacina contra febre amarela, cuja recomendação foi estendida para todo o país em 2020, teve cobertura de apenas 75,8% na dose inicial no estado, e de 76,9% no reforço.
O anuário alerta para as disparidades regionais e a existência de “bolsões” de baixa cobertura dentro dos estados. Mesmo quando a média estadual é considerada razoável, municípios vizinhos podem registrar diferenças drásticas. “Menos de um terço dos municípios brasileiros cumpriu a meta de cobertura para as quatro vacinas principais em 2023”, destaca o relatório. O dado é baseado no desempenho do Programa de Qualificação das Ações de Vigilância em Saúde (PAQVS), indicador oficial do Governo Federal.
Em Mato Grosso, a cobertura vacinal contra o HPV em meninas de até 15 anos exemplifica bem as desigualdades entre os municípios. Embora alguns alcancem índices elevados na aplicação da primeira dose, considerada impostante para a proteção contra o vírus que pode levar ao desenvolvimento de diversos tipos de câncer, outros apresentam desempenho alarmantemente baixo. É o caso de Rondolândia, com apenas 10,7% de cobertura, Nova Brasilândia (27,3%) e Denise (27,4%).
Para especialistas, a reversão do cenário exige mais do que campanhas pontuais. “Precisamos de dados, estratégia e compromisso institucional com a ciência e a prevenção”, afirma Natalia Pasternak, presidente do IQC. Segundo o estudo, a pandemia de Covid-19 agravou uma crise que começou ainda em 2015, interrompendo uma trajetória de altos índices de cobertura vacinal que o Brasil vinha mantendo desde a criação do PNI, em 1973.


























