A cínica transformação de Jair Bolsonaro já está em construção pela extrema direita visando a eleição presidencial deste ano. É a narrativa para transformar Bolsonaro, o deus do deboche, num mártir enjaulado. A operação de engodo público conta com a memória curta dos brasileiros e a aceitação de que um político anticristão militante merece devoção e votos dos evangélicos e católicos. A extrema direita usa o autointitulado “povo do bem” como instrumento político.
Transformar Jair Bolsonaro em mártir é uma estratégia eleitoral para beneficiar a candidatura do seu filho, Flávio Bolsonaro, que carece da verdade dos fatos. Segundo a filósofa Hannah Arendt, os fatos são a matéria das opiniões, e as opiniões, inspiradas por diferentes interesses e diferentes paixões, podem diferir largamente e permanecer legítimas enquanto respeitarem a verdade de fato. A liberdade de opinião é uma farsa se a informação sobre os fatos não estiver garantida e se não forem os próprios fatos o objeto do debate. Por outras palavras, a verdade de fato fornece informações ao pensamento político tal qual a verdade racional fornece as suas à especulação filosófica.
Jair Bolsonaro, sendo um devotado anticristão militante, não pode ser um mártir do povo do bem. Ele carece de todos os atributos morais e religiosos para ocupar este papel diante dos crentes brasileiros. Preso por tentativa de golpe de estado, Bolsonaro é um amante da tortura e da ditadura. Um defensor da morte é um anticristão na essência.
Jair Bolsonaro debochou dos brasileiros durante a pandemia, dizia ser normal que alguns brasileiros morressem, afinal é o destino de todos. A morte dos mais pobres, dos mais vulneráveis, foi considerada como um fato irrelevante para o seu governo, mais preocupado com a economia e com os negócios dos poderosos. Compaixão e solidariedade são sentimentos e gestos cristãos. Como Bolsonaro exige agora compaixão sem nunca ter tido compaixão pelos brasileiros vulneráveis e pelos brasileiros mortos pela Covid? Essa exigência, além de ser uma jogada eleitoral, mostra o caráter egoísta de Bolsonaro e dos seus filhos, Flávio, Eduardo e Carlos. Para eles, tudo de bom, toda a devoção e belos sentimentos. Para os brasileiros, restam o deboche e a indiferença.

Do Buraco da Memória
Visto em retrospecto, o Brasil assiste ao egoísmo de pai e filhos. Na tragédia particular da família Bolsonaro, cobram, aos prantos, solidariedade, respeito e compaixão. Na tragédia coletiva de milhares de brasileiros mortos pela Covid, não se viu qualquer gesto efetivo de solidariedade, respeito e humanidade do ex-presidente Jair e filhos. Nenhum Bolsonaro derramou nenhuma, nenhuma, lágrima pela dor dos outros.
O Mundo Bolsonaro é, assim, o mundo único da vida. Eles inculcam a ideia de verdade única que impõe a ausência do debate democrático. Desprezam a ideia de que a política deve ser orientada por um bem comum e submetida a finalidades morais coletivas. Em simultâneo, os Bolsonaros expõem a pobreza da substância de sua ideia quanto a força comunicativa do “falar igual a gente”, do tornar comum, parecer o outro, e entrar na intimidade dos sujeitos, também, pelas vias de suas fragilidades e dificuldades de leitura da realidade. Anticristãos por natureza, eles tentam agora ridicularizar o nobre sentimento cristão da compaixão.























