Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea (ECCO) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a professora doutora Maristela Carneiro comemora os 15 anos do programa como espaço de ‘fomento para pesquisadores interessados nos mais diversos aspectos do que entendemos como cultura’.
Em entrevista especial ao PNB Online, a professora Maristela Carneiro destaca que o perfil interdisciplinar do programa está de acordo com o contexto contemporâneo. Ela reforça ainda como a produção de conhecimento pode ser mais bem compartilhada pela sociedade.
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“Para compreender uma sociedade, precisamos nos aprofundar em todos os aspectos de suas vivências: a geografia que ela ocupa, seu histórico religioso, suas especificidades linguísticas, sua linguagem corporal, sua alimentação, suas preferências estéticas, suas formas de entretenimento. As trocas proporcionadas pelos trânsitos e meios de comunicação contemporâneos, por exemplo, certamente confluem para leituras cada vez mais globais dos fenômenos”.
Confira a íntegra de entrevista:
Qual é a relevância do programa ECCO para a cultura e para a sociedade de Mato Grosso?
O ECCO propicia um espaço de acolhimento e fomento para pesquisadores interessados nos mais diversos aspectos do que entendemos como cultura. Nossos docentes, discentes e egressos produziram e seguem produzindo investigações que nos permitem compreender de forma mais apurada nossa sociedade e as dinâmicas que nos conectam enquanto seres humanos. De um ponto de vista privilegiado, que é o da gestão do Programa, percebo que entre essas investigações, distribuídas nas três linhas de pesquisa, figuram diferentes estudos interdisciplinares que se debruçam, com minúcia e afeto, sobre as relações sociais e as vivências artísticas e midiáticas das comunidades do estado.
Quais são os pontos mais relevantes deste caráter interdisciplinar?
Buscamos encorajar estudos que não se concentram em um único aspecto da existência, pois qualquer pessoa firmemente engajada na investigação de temas que tocam nossas identidades, nossas humanidades, compreende que há questões que não podem ser explicadas apenas pela via da sociologia, da linguística, da psicologia, etc. Temas complexos exigem abordagens complexas, que atravessam vários campos de estudo. O ECCO privilegia estudos que trabalham a partir desse ponto de vista multifacetado.

O perfil interdisciplinar está de acordo com o contexto contemporâneo de entendermos a complexidade e a globalidade dos fenômenos sociais e culturais?
Com certeza. Enquanto cada área de conhecimento, com suas respectivas especificidades, tem muito a contribuir para a construção do amplo repertório de saberes da humanidade, não é possível compreender diferentes fenômenos de nossas vidas como coisas isoladas. Para compreender uma sociedade, precisamos nos aprofundar em todos os aspectos de suas vivências: a geografia que ela ocupa, seu histórico religioso, suas especificidades linguísticas, sua linguagem corporal, sua alimentação, suas preferências estéticas, suas formas de entretenimento. As trocas proporcionadas pelos trânsitos e meios de comunicação contemporâneos, por exemplo, certamente confluem para leituras cada vez mais globais dos fenômenos.
Como você vê a condição do pesquisador do ECCO? É um cientista?
Sim, se definirmos como cientista o profissional que se engaja no estudo aprofundado de fenômenos e na produção de materiais a partir destes estudos. Embora não exista consenso no meio acadêmico acerca da definição de cientista, somos certamente pesquisadores, questionadores, provocadores e produtores de conhecimento, e estamos exercendo nossa função social. Em quinze anos de existência do Programa, em dez anos da abertura do doutorado, com mais de 260 dissertações e 80 teses defendidas, não hesito em afirmar que o Ecco produz ciência, e não apenas isto: produz ciência relevante, plural, preocupada com a justiça social e o contemporâneo, em toda a sua potencialidade e problemática.
Como a produção de conhecimento pode ser mais e melhor compartilhada pela sociedade, no processo de democratização dos achados da ciência?
Creio que, apesar de todas as adversidades e carências, produzimos muitas pesquisas de qualidade em nosso país, mas ainda precisamos investir mais na divulgação científica. Precisamos, cada vez mais, tirar proveito das mídias contemporâneas, como as redes sociais, para difundir as discussões que fervilham no coração da academia. Demonstrar de uma vez por todas que a universidade não é um castelo acessível a poucos escolhidos. Sim, o acesso à universidade ainda é um privilégio em nossa sociedade, e precisamos fazer o possível para que o conhecimento que emana de nossas salas de aula, produções bibliográficas, técnicas e artísticas, presentes em nossos eventos, publicações em periódicos científicos e em nossas falas nos mais diversos âmbitos seja disponibilizado para um número maior de pessoas.
* Julia Munhoz é doutoranda do Programa de Pós-graduação em Estudos de Cultura Contemporânea (ECCO), da UFMT.
























