O lançamento do Plano Safra 2026/2027 representa um avanço importante para a agricultura brasileira. São R$ 525,1 bilhões destinados ao financiamento da produção, R$ 9 bilhões a mais que no ciclo anterior, além da redução das taxas de juros e da ampliação dos investimentos em armazenagem, irrigação, inovação e sustentabilidade.
Estive em Brasília acompanhando esse momento, ao lado do presidente em exercício Geraldo Alckmin, do ministro da Agricultura, André de Paula, e de diversas lideranças do setor. O sentimento é de que o Brasil avançou, mas ainda não resolveu o principal problema do produtor rural.
Ao mesmo tempo em que o Plano Safra amplia o volume de recursos disponíveis, cresce outra preocupação nos corredores de Brasília: milhares de agricultores continuam sem conseguir acessar esse crédito. Não por falta de linhas de financiamento, mas porque perderam sua capacidade de oferecer garantias após sucessivas safras de baixa rentabilidade, oscilações de preços e eventos climáticos extremos.
Nas últimas semanas participei de reuniões com representantes do Ministério da Fazenda, do Ministério da Agricultura, parlamentares e lideranças do setor produtivo para discutir justamente esse cenário. O debate sobre a renegociação das dívidas é importante e precisa avançar, mas tenho defendido que a agricultura brasileira necessita também de uma solução estrutural, capaz de olhar para a próxima safra e não apenas para os passivos acumulados.
As discussões em Brasília envolvem um passivo rural estimado em cerca de R$ 180 bilhões. A proposta prevê renegociação com prazo de até dez anos para pagamento e dois anos de carência. Trata-se de uma medida necessária, mas insuficiente para eliminar o principal obstáculo enfrentado por milhares de produtores: o acesso ao crédito.
É justamente nesse contexto que ganha força a proposta de criação de um Fundo Garantidor de Crédito para a agricultura brasileira. Tenho participado ativamente dessa discussão porque acredito que esse instrumento pode representar uma das mudanças mais importantes da política agrícola nacional nas últimas décadas. Ao compartilhar riscos entre governo, sistema financeiro e setor produtivo, o fundo permitirá que produtores temporariamente fragilizados por perdas climáticas e dificuldades financeiras voltem a acessar o crédito e mantenham sua capacidade de produzir.
Nos últimos anos, a agricultura se tornou muito mais vulnerável aos eventos climáticos extremos. Secas prolongadas, excesso de chuvas, quebras de safra e oscilações do mercado deixaram de ser exceções para fazer parte da realidade do campo. As políticas públicas precisam acompanhar essa nova dinâmica.
O Plano Safra representa um avanço importante, mas seu verdadeiro sucesso dependerá da capacidade de fazer o crédito chegar a quem produz. Fortalecer os mecanismos de garantia é preservar a capacidade produtiva do campo, proteger empregos e assegurar que o agronegócio continue impulsionando o desenvolvimento brasileiro. Essa é uma agenda que continuarei defendendo em Brasília, com diálogo, responsabilidade e compromisso com o produtor rural.
Carlos Ernesto Augustin (Teti) é engenheiro agrônomo, empresário rural, fundador da Aprosoja-MT e do Instituto Pensar Agro (IPA), ex-assessor especial do Ministério da Agricultura, ex-presidente do Conselho de Administração da Embrapa e vice-presidente do PSB de Mato Grosso.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online
























