O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, tem uma tradição discursiva, fala quase sempre usando um recurso do senso comum: falar fazendo comparações. Isso ajuda na comunicação com o público, mas algumas vezes causa embaraços. Fazer comparações significa fazer conexões entre coisas, ideias e valores. No campo acadêmico o rigor da comparação exige o método de achar termos equivalentes, avaliando meios e fins, o contexto da ação, para uma crítica dos fatos e valores. No senso comum e na política estes cuidados são ignorados.
Lula fez duas comparações recentes, mas apenas uma ganhou a estridência midiática, usada pela oposição para atacá-lo. A estridência explodiu com a comparação feita pelo presidente brasileiro entre matanças de civis em tempos distintos e em contextos distintos, sem definir com clareza os termos de equivalência para uma comparação. Comparou a ação militar do exército israelense em Gaza, que tem provocado a morte de milhares de palestinos, com a ação de Hitler de matança sistemática de judeus, seis milhões de pessoas, durante a segunda guerra mundial. Em quais termos esta comparação pode ser feita? Pela covardia? Pelo ódio? Pelo preconceito? Emoções podem gerar termos de avaliação, mas precisam ser vistas em conexão com os fatos reais e com valores que expressam. De todo modo, comparar por termos gerais, generalizando, é o risco de fazer uma operação equivocada, escapando o que é singular. No caso da matança em Gaza, o singular tem nome e sobrenome: Benjamin Netanyahu. Ele, seu governo extremista e a recusa em parar a matança como política de Estado são os termos para a avaliação de fatos e valores, que, por óbvio, dispensam comparações exteriores na busca pelo que é singular.
Marielle e Navalny
A outra comparação, feita sem termos para um juízo de valor, acabou eclipsada na mídia. Lula falou sobre a morte de Alexei Navalny, opositor de Vladimir Putin, Lula criticou no último domingo (18/2) a “pressa” para a resolução do caso. Navalny morreu, aos 47 anos, na última sexta-feira (16/2) numa colônia penal no Círculo Polar Ártico. Era um preso político do regime de Putin, que morreu na cela de uma penitenciária do regime de Putin. Lula comparou a espera pelo conhecimento da motivação e dos autores da morte de Navalny à espera da resposta do motivo e dos autores da morte da ex-vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, assassinada pelo crime organizado em 2018. A comparação, novamente de senso comum, foi um crime retórico contra a imagem dos dois ativistas mortos, Marielle e Navalny. É preciso cobrar as razões e as condições da morte de ambos, com a pressa que exige a defesa da democracia radical.
O discurso baseado no argumento central de comparar, sem qualquer termo de exame para a comparação, faz a alegria da oposição, gera crises reais, e só atende a um público pronto para aceitar qualquer coisa que o presidente Lula tenha a dizer.























