
Neste domingo, dia 22 de março, completa 70 anos da morte do arcebispo Dom Francisco de Aquino Corrêa, uma das figuras mais importantes da história de Cuiabá e de Mato Grosso. Além de arcebispo, Dom Aquino foi governador do Estado, escritor, poeta e o primeiro mato-grossense a pertencer à Academia Brasileira de Letras.
Francisco de Aquino Corrêa nasceu em Cuiabá, no dia 2 de abril de 1885. Era filho do casal Antônio Tomás de Aquino Corrêa e Maria de Aleluia Guadie Ley. Iniciou os estudos no Colégio São Sebastião e fez o curso no Seminário da Conceição. Depois, passou a frequentar o Liceu Salesiano de São Gonçalo, onde recebeu o grau de bacharel em Humanidades. Em 1904, seguiu para Roma onde cursou filosofia e em seguida matriculou-se, simultaneamente, na Pontifícia Universidade Gregoriana e na Academia São Tomás de Aquino, onde fez doutorado em Teologia, em 1908. Em 17 de janeiro de 1909, já tendo recebido todas as Ordens Menores e Maiores, foi ordenado presbítero.
De volta ao Brasil, foi nomeado diretor do Liceu Salesiano de Cuiabá, cargo que desempenhou até 1914, quando foi designado, pelo Papa Pio X, como bispo-titular de Prusias e bispo-auxiliar da Arquidiocese de Cuiabá, cargo que assumiu em 1 de janeiro de 1915. Dom Aquino tinha 29 anos, sendo então o mais jovem bispo do mundo. Em 1921, com a morte de Dom Carlos Luís d’Amour, Dom Aquino assumiu o Arcebispado de Cuiabá.

Presidente conciliador da Província
Em 1917 o estado de Mato Grosso passava por uma crise política e foi decretada intervenção federal pelo presidente Venceslau Brás. Ficou definido entre o presidente da República e os dois maiores partidos políticos locais, o Partido Republicano Mato-Grossense (PRMG), dirigido por Pedro Celestino Corrêa da Costa, e o Partido Republicano Conservador (PRC), liderado pelo senador Antônio Azeredo, que o nome mais indicado para governar o estado era o de dom Aquino Corrêa. Assim, o religioso foi lançado como candidato único ao cargo de presidente da Província, que na época equivalia à função de governador do Estado. No pleito de novembro de 1917 o acordo foi efetivado e Mato Grosso passou a ter um bispo como presidente. Tinha 32 anos de idade e governou Mato Grosso de 1918 até 1922.
Foi de sua iniciativa, por meio da resolução n.º 799 de 14 de agosto de 1918, a criação do atual Brasão de Mato Grosso. É também de Dom Aquino a criação da letra do hino do Estado.
Dom Aquino também fundou a Academia Mato-grossense de Letras, aclamado presidente de honra por unanimidade, e também fundou o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, sendo eleito presidente perpétuo.

Academia Brasileira de Letras
Dom Aquino foi autor de inúmeras e notáveis Cartas pastorais, de discursos, trabalhos históricos e poesias. Publicou Odes, o seu primeiro livro de versos, em 1917, seguido de Terra natal, onde reuniu poemas de exaltação a Mato Grosso e ao Brasil. Foi poeta em quatro idiomas: português, latim, italiano e francês.
Foi o quarto ocupante da cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 9 de dezembro de 1926, na sucessão de Lauro Müller e recebido pelo acadêmico Ataulfo de Paiva em 30 de novembro de 1927. Clique aqui e leia o discurso de posse de Dom Aquino na ABL.
70 anos da morte
O padre salesiano Bruno Ricco, que acompanhou o arcebispo até o momento de sua morte, contou em uma crônica como foram os últimos momentos de Dom Aquino. O arcebispo cuiabano estava internado no Sanatório de Santa Catarina, o primeiro hospital particular de São Paulo, fundado por Irmãs da Congregação de Santa Catarina. As informações é de que Dom Aquino sofria de falência nos rins.
No dia 22 de março de 1956, Dom Aquino perguntou à Irmã Walburga: “Irmã, estou mal?” E a religiosa, com franqueza, respondeu: “Sim, Excelência. Quer receber a Extrema Unção?”. De forma espontânea, Dom Aquino soltou a expressão que habitualmente tinha nos lábios “Que é isso?” e logo acrescentou: “Sim, quero…; é a terceira vez…”.
O padre conta detalhes daqueles últimos momentos do arcebispo. “Notei que Dom Aquino chorava. Pressentia a morte. Recebeu a Sagrada Comunhão com muito recolhimento, movendo continuamente os lábios em fervorosas preces”, disse.
“Leio a oração: Proficiscere, anima christiana, de hoc mundo (Parte, alma cristã, deste mundo). Nisso, com suas próprias mãos, firmes, apesar do corpo quase frio, Dom Aquino arrumou melhor o travesseiro, e inclinando a cabeça para o lado do coração, suspirou profundamente, pela última vez. Pusemos-lhe a vela acesa na mão. Nenhum gemido. Morreu como viveu: placidamente, na Santa Paz do Senhor”, registrou o padre.
Após sua morte, o corpo de Dom Aquino foi trazido para Mato Grosso e enterrado na cripta da Catedral Metropolitana de Cuiabá. O jornal O Estado de Mato Grosso, de março de 1956, registrou o momento. Transcrevemos abaixo a notícia:

“Toda a população cuiabana prestou anteontem solenes homenagens à memória do nosso querido Arcebispo Metropolitano, D. Francisco de Aquino Corrêa. No aeroporto de V. Grande enorme massa popular assistiu ao desembarque do ataúde que foi transportado para a Catedral em imponente cortejo fúnebre. Mais de cem automóveis e milhares de pessoas visivelmente emocionadas acompanharam os restos mortais do nosso eminente metropolita.
Da Igreja do São Gonçalo no Porto até a Praça da República, a urna funerária veio conduzida por populares que avidamente disputavam a honra de transportar o corpo inanimado daquele que foi o maior cantor das belezas e grandiosidade da terra mato-grossense. Todos os colégios, ginásios, escolas primárias, associações religiosas, representações de classe e desportivas, representante dos poderes executivo, legislativo e judiciários, das classes armadas e entidades culturais, em solene procissão, entoando hinos e orações acompanharam os restos o cortejo fúnebre até a Catedral Metropolitana onde o corpo ficou exposto a visitação pública.
Durante toda a noite de anteontem, milhares de pessoas desfilaram perante o esquife, numa impressionante demonstração de amor e pesar pelo infausto passamento do nosso venerado guia espiritual. Às 8 horas da manhã foi celebrada missa de Requiem e às 16 horas teve lugar o enterro que percorreu as nossas ruas.
Desde as 5 horas da manhã foram celebradas missas ininterruptas e os sinos de todas as igrejas da cidade dobraram de hora em hora. Por ocasião do sepultamento que teve a urna mortuária aberta na Catedral falaram os representantes do Governador do Estado, Desembargador Ernesto José do Nascimento, pela Academia Mato-grossense de Letras, Dr. José de Mesquita, pela Associação de Imprensa Mato-grossense Augusto Mario Vieira e pelas autoridades eclesiásticas, D. Antonio Campelo de Aragão.
A nave da Igreja Matriz foi insuficiente para conter a imensa massa popular que foi levar as suas últimas homenagens à memória de D. Aquino Corrêa”.

























