
Quase cinco décadas depois de ser assassinado por um policial militar em Ribeirão Cascalheira (a 749 km de Cuiabá), o padre jesuíta João Bosco Penido Burnier teve, nesta quinta-feira (28.08), a causa de sua morte oficialmente corrigida em seu atestado de óbito. O documento, que antes citava “acidente”, agora detalha: “Morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição sistemática à população, identificada como dissidente política por regime ditatorial instaurado em 1964”.
A retificação do documento do padre, e de outras 62 vítimas da ditadura militar, ocorreu durante uma cerimônia na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O evento contou com a presença de familiares e representantes do Governo Federal, entre eles a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo. A mudança ocorre 15 anos após o Estado brasileiro ter reconhecido formalmente, em 2010, sua culpa no assassinato do religioso.
Padre Burnier, mineiro de Juiz de Fora, era um missionário engajado na defesa de indígenas e trabalhadores rurais em Mato Grosso, em uma das áreas de maior conflito agrário do país na década de 1970. Alinhado à Teologia da Libertação, ele atuava na Prelazia de Diamantino e, meses antes de sua morte, havia sido eleito coordenador regional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Os jornais da época noticiaram o crime com destaque. Edições de outubro de 1976 de jornais como O Estado de Mato Grosso mostram a repercussão inicial e relatam que crime ocorreu quando Burnier e o bispo Dom Pedro Casaldáliga foram à delegacia de Ribeirão Bonito (hoje Ribeirão Cascalheira) para interceder por duas mulheres que estavam sendo torturadas. Dom Pedro também relatou o crime em seu livro “Martírio do Padre João Bosco Penido Burnier”.
Apesar de ter sido preso em flagrante, o policial militar responsável pelo disparo, Ezy Ramalho Feitosa, nunca foi efetivamente processado pelo crime. A retificação do atestado de óbito, agora, desmente oficial e definitivamente a versão sustentada por décadas.
Cerimônia em Minas Gerais (com Agência Brasil)
Durante a cerimônia, a ministra Macaé Evaristo afirmou que o evento foi carregado de simbolismo. “Esse ato nos diz que houve um dia em que, no nosso país, defender direitos, a liberdade, a dignidade e a cidadania era se opor aos interesses daqueles que dominavam o Estado brasileiro”, disse.
Eugênia Gonzaga, presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, lembrou que por muito tempo as famílias conviveram com causas falsas nos atestados, como suicídio ou acidentes. “Quero que os familiares recebam, juntamente com cada documento, o nosso mais sincero pedido de desculpas”, afirmou.

Para os familiares presentes, o novo documento representa o fim de uma longa agonia, como definiu a ministra Maria Elizabeth Rocha, do Superior Tribunal Militar, cunhada do desaparecido político Paulo Costa Ribeiro Bastos. “O sofrimento de perder alguém, de desconhecer o seu paradeiro, de saber que foi flagelado e assassinado pelo regime, é uma agonia indescritível”.
Ao final do evento, jovens descendentes das vítimas ressaltaram a importância de usar os novos documentos para divulgar a verdade sobre a violência da ditadura nas redes sociais, como forma de garantir que a luta por memória e justiça continue.
























