Pesquisar
Close this search box.
JOÃO BOSCO BURNIER

Morte de padre pela ditadura militar em MT tem causa oficial retificada após 49 anos

Alinhado à Teologia da Libertação, ele atuava na Prelazia de Diamantino.

Publicidade

Morte de padre pela ditadura militar em MT tem causa oficial retificada após 49 anos
Morte de padre pela ditadura militar em MT tem causa oficial retificada após 49 anos (Foto: Reprodução / CIMI)

Quase cinco décadas depois de ser assassinado por um policial militar em Ribeirão Cascalheira (a 749 km de Cuiabá), o padre jesuíta João Bosco Penido Burnier teve, nesta quinta-feira (28.08), a causa de sua morte oficialmente corrigida em seu atestado de óbito. O documento, que antes citava “acidente”, agora detalha: “Morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição sistemática à população, identificada como dissidente política por regime ditatorial instaurado em 1964”.

A retificação do documento do padre, e de outras 62 vítimas da ditadura militar, ocorreu durante uma cerimônia na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O evento contou com a presença de familiares e representantes do Governo Federal, entre eles a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo. A mudança ocorre 15 anos após o Estado brasileiro ter reconhecido formalmente, em 2010, sua culpa no assassinato do religioso.

Padre Burnier, mineiro de Juiz de Fora, era um missionário engajado na defesa de indígenas e trabalhadores rurais em Mato Grosso, em uma das áreas de maior conflito agrário do país na década de 1970. Alinhado à Teologia da Libertação, ele atuava na Prelazia de Diamantino e, meses antes de sua morte, havia sido eleito coordenador regional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Leia Também:  Haitianos acompanham jogo entre Brasil e Haiti em telão no Parque Cuiabá
(Imagem: O Estado de Mato Grosso)

Os jornais da época noticiaram o crime com destaque. Edições de outubro de 1976 de jornais como O Estado de Mato Grosso mostram a repercussão inicial e relatam que crime ocorreu quando Burnier e o bispo Dom Pedro Casaldáliga foram à delegacia de Ribeirão Bonito (hoje Ribeirão Cascalheira) para interceder por duas mulheres que estavam sendo torturadas. Dom Pedro também relatou o crime em seu livro “Martírio do Padre João Bosco Penido Burnier”. 

Apesar de ter sido preso em flagrante, o policial militar responsável pelo disparo, Ezy Ramalho Feitosa, nunca foi efetivamente processado pelo crime. A retificação do atestado de óbito, agora, desmente oficial e definitivamente a versão sustentada por décadas.

Cerimônia em Minas Gerais (com Agência Brasil)

Durante a cerimônia, a ministra Macaé Evaristo afirmou que o evento foi carregado de simbolismo. “Esse ato nos diz que houve um dia em que, no nosso país, defender direitos, a liberdade, a dignidade e a cidadania era se opor aos interesses daqueles que dominavam o Estado brasileiro”, disse.

Eugênia Gonzaga, presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, lembrou que por muito tempo as famílias conviveram com causas falsas nos atestados, como suicídio ou acidentes. “Quero que os familiares recebam, juntamente com cada documento, o nosso mais sincero pedido de desculpas”, afirmou.

Leia Também:  Inverno começa neste domingo no Brasil e terá impacto do El Niño
Belo Horizonte (MG), 28/08/2025 - Famílias de 63 vítimas da ditadura recebem atestado de óbito corrigido.
Belo Horizonte (MG), 28/08/2025 – Famílias de 63 vítimas da ditadura recebem atestado de óbito corrigido. (Foto: Daniel Carneiro)

Para os familiares presentes, o novo documento representa o fim de uma longa agonia, como definiu a ministra Maria Elizabeth Rocha, do Superior Tribunal Militar, cunhada do desaparecido político Paulo Costa Ribeiro Bastos. “O sofrimento de perder alguém, de desconhecer o seu paradeiro, de saber que foi flagelado e assassinado pelo regime, é uma agonia indescritível”.

Ao final do evento, jovens descendentes das vítimas ressaltaram a importância de usar os novos documentos para divulgar a verdade sobre a violência da ditadura nas redes sociais, como forma de garantir que a luta por memória e justiça continue.

COMENTE ABAIXO:

Compartilhe essa Notícia

Publicidade

Publicidade

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com o Deputado Estadual Wilson Santos

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com Valdinei Mauro de Souza