Pesquisar
Close this search box.
ARTIGO

Nadine Gordimer

Publicidade

Nascida em 20 de novembro de 1923, em Joanesburgo, tendo feito a passagem em 13 de julho de 2014, é uma importante escritora sul-africana. É autora de mais de 30 livros, em sua maioria sobre a devastação que afetou a África do Sul, o apartheid.

Usou a literatura como ato de resistência, sendo a sua voz utilizada contra as estruturas de opressão. Elucidou sobre o que move as engrenagens da violência, da desigualdade e da exclusão. Sua obra demonstra que escrever nunca foi, para ela, um gesto neutro ou contemplativo.

Em tempos em que os debates sobre igualdade de gênero frequentemente se reduzem a disputas superficiais nas redes sociais, revisitar a trajetória de Gordimer significa recordar que o feminismo possui raízes muito mais aprofundadas, se perfazendo na defesa intransigente da liberdade humana. A sua literatura evidencia que todas as formas de opressão dialogam entre si, alimentando sistemas que naturalizam privilégios masculinos, coloniais e econômicos.

Ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1991, a Academia Sueca destacou sua extraordinária capacidade de revelar, por meio da ficção, os efeitos devastadores da opressão sobre indivíduos aparentemente comuns. Em seus romances não existem heróis perfeitos nem vilões caricatos. Mas, sim, mulheres e homens atravessados por contradições, medos, privilégios e culpas.

Suas protagonistas são mulheres dotadas de densidade psicológica, consciência política e autonomia moral. Elas erram, hesitam, amam, rompem, resistem e reinventam a própria existência. Essa escolha literária possui enorme significado político. Durante séculos, a cultura ocidental reservou às mulheres o espaço doméstico, o silêncio e a invisibilidade intelectual. Quando apareciam na literatura, frequentemente eram retratadas como musas, esposas dedicadas ou figuras trágicas cuja identidade dependia do olhar masculino. Gordimer rompe com essa tradição ao colocar mulheres no centro das decisões éticas que estruturam suas narrativas.

Leia Também:  Nova droga aprovada pela Anvisa controla fogachos e outros sintomas associados à menopausa

A escritora compreendia que a emancipação feminina não poderia vir separada das demais formas de emancipação social. A mulher branca privilegiada, vivendo confortavelmente em uma sociedade racista, também participa, ainda que involuntariamente, da manutenção de estruturas de exclusão. Essa consciência crítica impede que sua literatura se acomode em simplificações.

Citada perspectiva dialoga com reflexões contemporâneas desenvolvidas por pensadoras como Kimberlé Crenshaw, que demonstra como gênero, raça e classe constituem dimensões inseparáveis das experiências humanas. Apesar da sua escrita ter sido construída antes da popularização do conceito de interseccionalidade, seus romances já revelavam, de forma intuitiva, essa compreensão sofisticada das múltiplas formas de dominação.

Em romances como Burger’s Daughter, July’s People e The Conservationist, é perceptível que o exercício do poder não foi retratado exclusivamente masculino ou racial. Ele circula pelas instituições, pela economia, pelas famílias e pela linguagem. As personagens femininas frequentemente ocupam posição privilegiada dentro da estrutura racial, mas permanecem submetidas ao patriarcado. Ao mesmo tempo, mulheres negras enfrentam uma dupla ou tripla carga de exclusão, acumulando discriminações que se reforçam mutuamente.

Leia Também:  Ao produtor rural, com respeito

Acreditou firmemente que a literatura poderia impedir que a sociedade aceitasse a injustiça como algo normal. Antes das grandes mudanças jurídicas ou políticas, torna-se necessário modificar o imaginário das pessoas. E poucas ferramentas realizam essa tarefa com tanta profundidade quanto a arte.

Participou ativamente da resistência ao apartheid, mantendo relação de amizade com Nelson Mandela, e tendo colaborado com intelectuais perseguidos pelo regime e que tiveram as obras censuradas pelo governo sul-africano.

Ela nos lembra que a democracia não se constrói apenas por meio de eleições ou de boas constituições. Depende, ainda, da capacidade coletiva de reconhecer a dignidade do outro, especialmente daqueles historicamente silenciados. Entre esses sujeitos encontram-se milhões de mulheres cujas histórias foram omitidas, minimizadas ou distorcidas ao longo dos séculos.

A sua voz continua viva, pois nos recorda, a cada página, que escrever também é um ato de liberdade. É dela: “A poesia é ao mesmo tempo um esconderijo e um alto-falante”.

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

COMENTE ABAIXO:

Compartilhe essa Notícia

Publicidade

Publicidade

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com o Deputado Estadual Wilson Santos

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com Valdinei Mauro de Souza