Solitário e solidário leitor. Há quem esteja comemorando nesta segunda-feira o Golpe Militar de 1964, que, na verdade, teria acontecido amanhã, 1º de abril, chamado Dia da Mentira. Não importa a data, se foi num ou noutro dia, mas, sim, suas consequências, de nefasta amplitude. A ditadura mata, prende e tortura (estava certíssimo o pessoal da tendência estudantil Liberdade e Luta dos anos de 1970, que explicitava esta situação em sua principal palavra-de-ordem). Prende, tortura e mata para impor sua visão de mundo à sociedade. Se não for pela aceitação, vai pelo medo, pela eliminação do contrário. Além de tentar formar quadros para manter sua continuidade.
(Sem entrar no mérito se houve ou não morte no primeiro dia do Golpe de 64, o fato é que as atrocidades começaram logo no primeiro dia. Por tentar defender o então governador, eleito, Miguel Arraes, o líder camponês Gregório Bezerra foi preso no interior de Pernambuco, levado para Recife e arrastado pelas ruas do bairro nobre de Casa Forte, com uma corda amarrada no pescoço, exposto como um animal).
Lembro-me de, na pequena Rio Novo (MG), onde morava, sermos obrigados a usar um uniforme composto por cabelo cortado a Principe Danilo, camisa brim marechal e calça também de brim, que nos disseram chamar Floriano, além de sapato preto, meia preta e casquete na cabeça. Quem assim não estivesse vestido, não entrava nas dependências do prédio da escola. Sem contar a formação em fila indiana para entrar em sala de aula e os sermões de conteúdo moral e cívico. Tínhamos apenas 12 ou 13 anos. O segundo grau (antigos Científico, Clássico ou cursos técnicos como Contabilidade), já com 15 anos, em Juiz de Fora, para quem estudava à noite e, ainda com bolsa integral por ser o colégio particular, a situação era quase mesma, exceto não mais usar uniforme. Pelos menos um de meus professores era declaradamente fascista.
Na Universidade, o ar era mais respirável. O problema estava no colega ao lado, que podia ser dedo-duro. Muitas vezes, convivia com a gente, frequentando o mesmo boteco, os mesmos shows mambembes, mas seu papel era monitorar possíveis dissidentes, porque o Decreto-Lei 477, de fevereiro de 1969, que, mesmo punindo duramente professores, alunos e funcionários, não dava conta do recado, não conseguindo, portando, impedir a Universidade de se transformar em foco de resistência. Com certeza, é por isso que os defensores de um novo golpe desprezam e caluniam esta instituição, especialmente a pública.
Para encerrar: Não importa se o ministro Flávio Dino tenha se equivocado ao dizer não ter havido mortos no primeiro dia Golpe de 64, quando votou, na semana passada, para transformar o ex-presidente Bolsonaro em réu. Importa mesmo foi sua contraposição à falsa ideia de que um golpe de Estado, ou sua tentativa, seja uma infração menor ou insignificante, apenas porque não resultou em morte no dia de sua execução. Usando suas próprias palavras, “é uma desonra à memória nacional, uma agressão a quem perdeu familiares naquele momento de trevas da vida brasileira”.
Publicado em A Gazeta, de Cuiabá, nesta segunda-feira, 31 de março de 2025
Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista

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