
O pesquisador Nico Carpentier é uma referência mundial em estudos que trabalham com a potência das formas da comunicação multimodal, com conteúdos que abordam questões ligadas à democracia e à liberdade. Em um ensaio cinematográfico, ele discute uma temática do contexto contemporâneo da sociedade midiatizada que afeta a todos nós: os rumos da democracia em tempos de populismo autoritário de viés totalitário. Qual é o significado da democracia e como ela é contestada? Essa é a pergunta condutora da sua reflexão acadêmica neste ensaio cinematográfico.
Intitulado ‘AGON. Constructions of Democracy’, o ensaio, desenvolvido em parceria com Ali Minanto e Jhon Sany Purwanto, propõe uma reflexão teórica sobre a construção política da democracia. A obra parte da ideia de que a democracia é um conceito em disputa, cujos significados variam conforme diferentes projetos ideológicos e comunicacionais que buscam hegemonia no espaço público.

Inspirado no livro Democracy and Media in Europe (2025), o ensaio mobiliza o conceito de “significante vazio”, formulado por Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, para argumentar que a democracia não possui um sentido fixo, sendo constantemente ressignificada em meio a disputas discursivas e materiais.
A narrativa combina linguagem acadêmica e experimentação estética, e articula teoria com encenações ficcionais e elementos performáticos, como a dança. Inserido no campo da pesquisa baseada em artes, conforme proposto por Patricia Leavy, o ensaio transita entre racionalidade e emoção, fato e imaginação.
Um dos principais recursos simbólicos do filme é a personagem “mulher com balões”, que representa a democracia. Caminhando por espaços públicos de Praga, ela carrega balões que formam a palavra “democracy”, em uma referência visual que dialoga tanto com o filme A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, quanto com obras do artista Banksy. A partir dessa figura, o ensaio explora quatro dimensões centrais: os elementos fundamentais da democracia, as disputas políticas em torno de seu significado, suas condições de possibilidade e as ameaças que enfrenta.
O ensaio também aborda as chamadas “condições de possibilidade” da democracia, conceito que remonta a Immanuel Kant e foi posteriormente desenvolvido por Michel Foucault e Gilles Deleuze. Essas condições dizem respeito a fatores externos, mas essenciais, como estabilidade socioeconômica, participação cidadã, legitimidade das instituições e a existência de uma cultura democrática. No filme, esses elementos são simbolizados por trabalhadores que constroem coletivamente estruturas que representam os “pilares” da democracia.
Confira a obra na íntegra publicada no Journal of Audiovisual Essays Tecmirin:
* Safira Campos é jornalista. Mestra em Comunicação e Poder pela UFMT e doutoranda em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM.
** Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e doutor em Comunicação pela UFMG
























