Reprodução

Em entrevista ao PNB Online, os cientistas Marko Monteiro, Ana Arnt e Yurij Castelfranchi relatam as dificuldades da carreira no atual contexto brasileiro.
Infraestrutura inapropriada, cortes de verbas, ameaças, perseguição e problemas de saúde física e mental. Estes são alguns dos obstáculos descritos por quem decide ser pesquisador no Brasil atual.
No Dia Nacional da Ciência, celebrado nesta quinta-feira (08.07), a conjuntura de desmonte de universidades e políticas públicas de incentivo à pesquisa não permite grandes comemorações. A chegada da pandemia de covid-19 e a falta de perspectiva para o seu fim deixam o cenário ainda mais sombrio.
Nesta quinta-feira (08.07), o PNB Online conversou com três prestigiados pesquisadores brasileiros. Eles integram frentes que estudam questões como a sociologia dos movimentos anti-ciência, relações entre ciência e sociedade, e a governança da ciência e da tecnologia no Brasil. Para os cientistas, os ataques estão postos e ameaçam o futuro da ciência no país. Os entraves desanimam de jovens pesquisadores a doutores com carreiras já consolidadas, que acabam buscando reconhecimento em outros países ou em outras áreas.
É o que relata Yurij Castelfranchi, professor associado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Minas Gerais (UFMG). Italiano, o cientista formado em Física na Università degli Studi di Roma La Sapienza atua desde o começo dos anos 2000 no Brasil. Para ele, o retrocesso é nítido e faz parte de uma política de ataques claros e planejados, que vêm em forma corte de bolsas, ameaças a cientistas e perseguições a pesquisadores brasileiros.
“Corremos o risco de estar realmente desmontando o avanço, o progresso que ocorreu nas últimas décadas no Brasil”
“Como sabemos, já há claramente uma fuga de cérebros para o exterior. Tanto os jovens pesquisadores estão vendo muita perspectiva em migrar quanto os cientistas com carreiras já consolidadas estão se transferindo para o exterior. É um período muito crítico para a ciência brasileira e para o seu futuro. Corremos o risco de estar realmente desmontando o avanço, o progresso que ocorreu nas últimas décadas no Brasil. E esta não é somente uma avaliação minha. Esse grito de alerta está sendo lançado por todas as principais sociedades e associações científicas do Brasil”, pontua Castelfranchi.
A situação é ainda mais preocupante entre os que estão iniciando a carreira de cientistas. O desencanto pode acarretar a perda de descobertas brasileiras ao longo dos anos, o que tem implicações diretas na subserviência e na dependência econômica e tecnológica de outros países. A falta de bolsas e oportunidade de reconhecimento afasta os brasileiros do interesse na pós-graduação acadêmica, como relata Marko Monteiro, doutor em Ciências Sociais e professor na Universidade Estadual de Campinas, considerada uma das melhores universidades da América Latina.
“Estamos perdendo pessoas brilhantes que estão indo para fora ou para o mercado”
“O pior que eu vejo é o impacto nas novas gerações. A ciência no Brasil e no mundo inteiro também é feita no pós-doutorado e por doutorandos, mestrandos e estudantes de iniciação científica na graduação. Essa cadeia toda é super importante para você ter a formação de novos quadros, novas ideias e até para fazer a parte mais pesada do trabalho em todas as áreas, humanas, biológicas, exatas. Eu vejo nessas pessoas um desencanto muito grande. Estamos perdendo pessoas brilhantes que estão indo para fora ou para o mercado, mudando de carreira”, afirma.
O fortalecimento do discurso anti-ciência também é marca importante do contexto atual. O distanciamento dos centros de pesquisa e dos pesquisadores da sociedade vem sendo debatido por estudiosos do tema que vêm tentando ampliar ações de extensão e de divulgação científica no Brasil. Eles esbarram, entretanto, no amplo alcance das fake news, que contam com financiamento e rápida disseminação, como explica Ana Arnt, que integra o Departamento de Genética, Evolução, Microbiologia e Imunologia da Unicamp.
“A questão é que há investimentos e ganhos financeiros envolvendo a disseminação de discursos anticientíficos. Desde monetização de canais que disseminam desinformação – e um combate não eficiente disso – até grupos que investem dinheiro para a manutenção e produção de conteúdos que viralizam em canais e grupos de WhatsApp ou outras redes de mensagens, por exemplo. O perigo disso está no afastamento das pessoas da possibilidade de compreender como o conhecimento é produzido”, pondera.
























