Pesquisar
Close this search box.
ARTIGO

O fim da metafísica e o nascimento da inteligência artificial

De Marx a Valéry, como cinco pensadores demoliram a ideia de um fundamento eterno do mundo e abriram caminho para a máquina que pensa sem ter alma.

Publicidade

Durante 2.500 anos a filosofia ocidental viveu de uma promessa: existe um fundamento por trás do mundo. Platão o chamou de Ideia, a Idade Média de Deus, Descartes de Razão, Hegel de Espírito. A metafísica era a ciência desse fundamento. No século XIX, quatro pensadores e um poeta decidiram que essa promessa era falsa. Sem combinar, eles demoliram a casa. Hoje, a inteligência artificial mora nos escombros e nos obriga a entender o que eles fizeram.

A demolição começa com Karl Marx, por volta de 1845. Nas obras de juventude, ainda em confronto direto com Hegel, Marx propõe uma inversão brutal: não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência. Toda aquela metafísica que fala de Estado eterno, Justiça universal, Espírito do Povo, seria o que ele batiza de ideologia. Não uma mentira deliberada, mas uma cortina de fumaça. As ideias dominantes de uma época são apenas as ideias da classe dominante apresentadas como eternas para justificar seu poder. A religião, que ele chama de ópio do povo, não é só alienação, é analgésico para uma dor material real. Seu gesto é trazer a filosofia do céu para a terra, da nuvem para a fábrica. No lugar de perguntar “o que é o Ser?”, ele passa a perguntar como uma simples mesa de madeira ganha um valor que parece mágico no mercado. A resposta não está na essência da mesa, está no trabalho humano escondido nela. Acaba a metafísica, começa a economia política.

Quase quarenta anos depois, Friedrich Nietzsche dá o segundo golpe, mais visceral. Em A Gaia Ciência, de 1882, ele escreve a frase mais famosa da filosofia moderna: Deus está morto. E nós o matamos. Deus aqui não é só o Deus cristão, é o nome de todo o outro mundo inventado pela metafísica para julgar este mundo. O mundo verdadeiro, perfeito, imutável de Platão, que serve para dizer que este aqui, de corpos, mudança e sofrimento, é falso e deve ser negado. Para Nietzsche, a metafísica nasce do ressentimento, da vingança dos fracos contra a vida. Incapazes de suportar uma existência sem garantias, sem sentido final, inventam um além-mundo onde serão recompensados. Conceitos como alma, essência, verdade em si, são para ele ficções gramaticais. Não existe um ser por trás do fazer. Com a morte de Deus, cai a ideia de Verdade única. O que sobra são perspectivas, interpretações e a tarefa mais difícil: criar valores em vez de descobri-los. O filósofo deixa de ser o sacerdote da Verdade e vira médico da cultura.

Leia Também:  Recomeçar não é começar do zero

Na virada do século, Sigmund Freud desfere o terceiro golpe, o mais íntimo. Se Marx tirou o homem do centro da história e Nietzsche do centro da moral, Freud o tira do centro de si mesmo. A partir de A Interpretação dos Sonhos, de 1900, ele mostra que a grande ilusão da metafísica – uma alma racional, transparente e dona de si, o cogito cartesiano – não existe. O eu não é senhor em sua própria casa, é servo do isso, do superego e da realidade. Em O Futuro de uma Ilusão, de 1927, ele aplica o bisturi diretamente em Deus. Deus não é fundamento do universo, é a projeção ampliada da figura do pai da infância, uma tentativa de transformar nosso desamparo radical diante da morte e da natureza em proteção. A metafísica, assim, seria uma neurose obsessiva coletiva, um sintoma. Não há Ideias eternas, há desejos recalcados, pulsões e traumas infantis tentando dar sentido ao insuportável.

Martin Heidegger fecha o ciclo em 1927 com Ser e Tempo, mas de forma paradoxal. Para ele, Marx, Nietzsche e Freud ainda não superaram a metafísica, apenas a completaram. Toda a metafísica de Platão a Nietzsche teria cometido o mesmo erro: perguntou pelos entes, o que são as coisas, e esqueceu do Ser, o fato espantoso de que as coisas são. E para explicar os entes, sempre inventou um ente supremo: Ideia, Deus, Sujeito, Vontade de Poder. Até Nietzsche, ao trocar Deus por Vontade de Poder, ainda estaria fazendo metafísica. O destino dessa lógica, diz Heidegger em A Questão da Técnica, é transformar tudo em fundo de reserva, em recurso calculável e estocável. O rio vira reserva hidrelétrica, o homem vira recurso humano. O fim da metafísica não seria sua refutação, mas sua realização plena como domínio técnico planetário.

Faltava um quinto homem para entender onde isso nos trouxe. O poeta francês Paul Valéry. Desde sua crise em Gênova em 1892, Valéry passa 50 anos escrevendo 30 mil páginas de Cahiers para provar que a metafísica cometeu um erro de linguagem. Palavras como Ser, Nada, Espírito, Verdade, são para ele abusos do dicionário. A filosofia tomou substantivos práticos e os transformou em entidades eternas. E tomou o pensamento por descoberta, quando pensar é fazer, é operar. Seu herói é Leonardo da Vinci, que não separa arte de engenharia. Inteligência, para Valéry, não é contemplar, é construir.

Leia Também:  A florada dos ipês

É por isso que a inteligência artificial é o ponto onde todos se encontram. Ela é, ao mesmo tempo, a prova final de que eles tinham razão e o nosso maior teste. Marx diria: não perguntem o que a IA é, perguntem de quem ela é. Por trás da magia há trabalho precarizado e cinco empresas donas dos meios de produção. Nietzsche diria: não perguntem se ela é verdadeira, perguntem se ela vos torna mais fortes ou mais rebanho, criadores ou último homem que terceiriza sua vontade. Freud diria: não perguntem se ela pensa, perguntem por que precisais tanto acreditar que ela vos ama, por que criastes um pai onisciente e sempre disponível às três da manhã. Heidegger diria: ela é o ápice da metafísica, a linguagem, que era a casa do Ser, transformada em tokens a serem calculados. Ela não pensa, ela calcula entes e nos faz esquecer de habitar.

Valéry, porém, seria o único a comemorar. A IA prova sua tese mais radical: é possível produzir todos os efeitos da inteligência, da poesia e da filosofia sem nenhuma essência, sem alma, sem Ser. Apenas por operações. Ela mostra que a metafísica era um luxo desnecessário. Se não há fundamento, não há o que lamentar. Resta o que sempre interessou a Valéry: a precisão, o artifício, o fazer. Diante da máquina que escreve como Platão sem nunca ter pensado, a pergunta deixa de ser o que é o homem, pergunta metafísica, e passa a ser o que o homem pode fazer.

José Antônio Borges Pereira é Procurador de Justiça do Estado de Mato Grosso e titular da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

Compartilhe essa Notícia

Publicidade

Publicidade

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com o Deputado Estadual Wilson Santos

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com Valdinei Mauro de Souza