Há coisas que um cargo não deveria conseguir esconder. Mas esconde.
A política brasileira, e não só ela, tem uma curiosa habilidade de transformar fatos graves em notas de rodapé. Episódios que, em qualquer outra esfera, marcariam definitivamente a trajetória de alguém, tornam-se “assuntos superados” quando atravessados pelo poder. A violência contra a mulher é um desses casos.
Não como conceito abstrato, repetido em campanhas institucionais, mas como realidade concreta, com nome, contexto e consequências. Uma realidade que, vez ou outra, encosta perigosamente nas estruturas de poder.
E quando isso acontece, o que se espera? Responsabilização? Coerência? Memória? Nem sempre.
Em um uma província conhecida por todos nós, reportagens amplamente divulgadas à época trouxeram à tona um episódio de agressão envolvendo uma figura pública que hoje ocupa um cargo alto, vamos dizer assim. O caso foi noticiado, discutido, comentado. E depois… absorvido. Como se o tempo, por si só, fosse capaz de dissolver o que aconteceu. Mas não é.
A violência não deixa de existir porque deixou de ser manchete. Ela não se apaga porque o ciclo político avançou. E, sobretudo, ela não se torna irrelevante porque o agressor ocupa hoje uma posição de prestígio. É justamente o contrário. Quanto maior o poder, maior deveria ser o rigor da memória.
Cargos públicos não são apenas espaços de decisão, são também espaços simbólicos. Representam valores, referências, exemplos. E é impossível dissociar completamente o que alguém faz no exercício do poder do que já fez quando ninguém estava olhando. Ou pior: quando estavam, mas escolheram esquecer.
O discurso institucional costuma ser impecável. Todos são contra a violência. Todos defendem respeito, dignidade, igualdade. Mas há uma diferença entre dizer e sustentar. Essa diferença aparece exatamente nos momentos em que lembrar se torna inconveniente.
Combater a violência contra a mulher não é apenas criar campanhas ou repetir slogans. É também enfrentar contradições, inclusive aquelas que envolvem figuras influentes. É recusar o conforto do esquecimento seletivo.
O problema não é apenas quem levanta a mão. É quem, depois, finge que não viu.
Marina Duarte é analista de Gestão Pública

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online
























