
Mesmo sendo uma importante região produtora de energia do país, Mato Grosso continua pagando uma das tarifas mais caras. Segundo ranking divulgado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a tarifa média paga pelo consumidor da Energisa MT em 2024 é de R$ 0,847 por kWh, a sexta mais alta do Brasil, e acima da média nacional.
O dado chama atenção porque o estado abriga grandes ativos do setor elétrico, além de diversas hidrelétricas de médio e grande porte. Ainda assim, essa infraestrutura pouco se reflete no bolso do consumidor mato-grossense. Para o engenheiro elétrico e professor da Universidade Federal de Itajubá, José Marangon, a resposta está no próprio desenho do sistema energético brasileiro.
Em palestra no Encontro da Indústria do Setor Elétrico, realizado em Cuiabá nesta terça-feira (20.05) pelo Sindenergia (Sindicato da Construção, Geração, Transmissão e Distribuição de Energia Elétrica e Gás no Estado de Mato Grosso), Marangon explicou que o modelo criado no final dos anos 1990 favorece principalmente a região Sudeste, onde estão os grandes centros consumidores do país.
“Esse país foi construído com a lógica de levar energia das hidrelétricas no interior para os grandes centros no litoral”, disse Marangon, que já atuou na Eletrobras, na Aneel e no Ministério de Minas e Energia. “A linha de corrente contínua que atravessa Mato Grosso, por exemplo, liga Porto Velho a São Paulo. Mas a energia não fica aqui. Ela passa, vai embora”.
Ele destacou que, embora o estado seja rico em potencial hidráulico e solar, a interiorização da geração não foi acompanhada por uma interiorização dos benefícios. “Mato Grosso é quase como o Amazonas nesse sentido: gera muito, mas consome pouco, e paga caro”, afirmou.
Tarifas elevadas e pouca geração local conectada

O caso de Mato Grosso não é isolado. Entre as dez tarifas mais altas do país, segundo a Aneel, estão também estados da região Norte e Nordeste, como Pará, Alagoas e Amazonas. A distribuidora com a tarifa mais cara em 2024 é a Equatorial Pará (R$ 0,938/kWh), seguida pela Enel RJ (R$ 0,913/kWh) e Energisa MS (R$ 0,870/kWh).
Marangon lembrou que a energia gerada no Brasil segue uma lógica de leilões e contratos de longo prazo firmados no mercado regulado, e que o consumidor final arca com os custos da transmissão e da distribuição. O especialista também destacou o papel da chamada geração distribuída, como a solar em telhados, no alívio da tarifa, mas alertou que ela ainda é mal compreendida e mal regulada. “A geração distribuída pode ser parte da solução, mas há resistência das distribuidoras. É preciso mudar a lógica do sistema”, disse.
Encontro do setor
O evento ocorrido entre 20 e 21 de maio reuniu representantes de empresas do setor, autoridades estaduais e especialistas em energia para discutir propostas e encaminhamentos capazes de destravar o crescimento energético de Mato Grosso. Durante a abertura do Encontro, o presidente do Sindenergia, Carlos Coelho Garcia afirmou que Mato Grosso vive um momento decisivo para o futuro do setor elétrico.
“Somos, de um lado, um dos maiores potenciais remanescentes do país. Por outro, passamos por um período desafiador, em que a infraestrutura existente não suporta o crescimento da nossa matriz elétrica”, disse. “Precisamos urgentemente garantir a expansão da infraestrutura e viabilizar o crescimento do nosso parque gerador, sobretudo com fontes hidrotérmicas e solar. Isso é fundamental não só para baratear a energia, mas para garantir a qualidade do fornecimento e sustentar o desenvolvimento industrial do estado”, completou.


























