Às vésperas de completar dois anos do falecimento da professora Michèle Sato, o PNB Online relembra, nesta quinta-feira (15.05), uma entrevista concedida ao veículo em 2020, no auge da pandemia de covid-19, marcada por críticas profundas à forma como a humanidade se relaciona com a natureza. Na conversa, Sato refletiu sobre a crise sanitária, o avanço do colapso climático e os limites de um modelo de desenvolvimento que desconsidera o equilíbrio ecológico.

“A megalomania do ser humano de querer controlar tudo, até podar uma árvore em formato redondo, é a expressão de um pensamento que nos separa da natureza”, afirmou. Para ela, a pandemia evidenciava o fracasso da ideia de domínio sobre os sistemas naturais. “O morcego não é o vilão da covid-19. O vilão é o ser humano que foi lá e depredou a natureza”.
Michèle Sato foi uma importante voz da academia na defesa da educação ambiental crítica. Professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), ela via na emergência climática um sintoma do que chamava de “Capitaloceno”, um termo usado para destacar o papel das elites econômicas na devastação ambiental. “Não somos todos iguais. Um morador de bairro periférico tem menos culpa do que um grande empresário do agronegócio”, disse.
Segundo ela, a ideia de Antropoceno, período em que a ação humana passou a impactar o planeta de forma irreversível, precisava ser localizada socialmente. “Quem está eliminando mais gases do efeito estufa é o capital, as grandes corporações. A destruição da natureza acontece porque uma minoria quer ficar rica”, disse ao PNB Online.
Ao longo da entrevista, Sato também fez críticas contundentes ao avanço do pensamento conservador, ao negacionismo científico e à precarização da educação. Para ela, a educação ambiental era mais do que informação: era uma forma de resistência. “Estamos no meio de uma guerra híbrida, em que as armas são fake news e manipulação de dados. Não falta informação. Falta vontade de mudar”.
Mesmo pessimista quanto à resposta social à crise, ela insistia na necessidade de romper com a normalidade. “A gente tem que aprender, não dá pra voltar ao que era. Porque o que era não estava dando certo. Por isso entramos em crise.”
Sato também alertou para as futuras pandemias, possíveis diante do avanço da destruição ambiental e do derretimento de geleiras que, segundo estudos, têm liberado vírus preservados há milhares de anos. “Tenho dúvidas se vamos passar pela próxima pandemia. Vai ser uma guerra nas estrelas: a minoria lá em cima, na nave, e a vasta maioria em tribos e cavernas aqui embaixo.”
A professora faleceu em 16 de maio de 2023, aos 63 anos.
























