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ARTIGO

Vítimas do desdém

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Primeiro semestre de 1974. O Brasil vivia a ressaca do “milagre econômico” (1968/1973), uma mescla de rápido crescimento econômico, arrocho salarial, concentração da renda, aumento da desigualdade social, e a transição da Era Médici (“ame-o ou deixe-o”) para a Era Geisel (“abertura lenta e gradual” e “pacote de abril”). Estava com 20 anos, havia trancado a matrícula na Faculdade de Economia da UFJF, em Juiz de Fora (só mais tarde optei pelo Jornalismo), e tentava “juntar uma graninha” em São Paulo, para dar sequência aos estudos (ainda não havia o parco crédito educativo, surgido alguns anos depois).

A cidade efervescia em ofertas de empregos. O metrô, iniciado seis anos antes, inaugurava sua primeira linha, de 3,5 km, entre Jabaquara e Vila Mariana, onde morei numa pensão da rua Nuporanga, próximo ao Colégio Madre Cabrini, enquanto alugava minha força de trabalho, com muitas horas extras, como escriturário de uma grande construtora da época, na Avenida Paulista. Foi quando fiquei sabendo sobre uma epidemia de meningite na Grande São Paulo. Um dos moradores da pensão, mais novo que eu, morreu infectado.

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Até então, nada havia sido noticiado. Atentados, passeatas e epidemias eram assuntos vetados à imprensa. A doença, iniciada em 1971, aumentava ano a ano e chegou a causar 2.500 mortes em 1974, apenas na capital paulistana. Só assim, e com a pressão da mídia, os generais reconheceram publicamente o problema, criaram a Comissão Nacional de Controle à Meningite e importaram milhões de doses de vacina; escolas paulistas abrigaram hospitais de campanha e aulas e eventos esportivos foram suspensos, entre eles os Jogos Panamericanos de 1975, a ser realizado em São Paulo. Foram transferidos para a Cidade do México.

Antes disso, temendo arranho à imagem do país por reconhecer como epidemia uma doença para a qual já havia imunizante, o caso foi considerado de Segurança Nacional. Significado: qualquer desobediência era considerada uma ameaça à estabilidade do país e, portanto, reprimida

Na verdade, segundo a professora Rita Barradas, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, que trabalhou na linha de frente e escreveu o livro “Meningite, uma doença sob censura?”, enquanto apenas gente da periferia morria, muitos sem diagnósticos ou tratamento, o assunto foi abafado. Sua existência só foi admitida, quando atingiu bairros nobres. Ou seja, três anos após seu início.

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Quase 50 anos depois, durante a pandemia da Covid 19, o atraso de sete meses na compra de vacinas provocou a morte de cerca de 95 mil pessoas no Governo Bolsonaro, segundo matéria publicada na BBC Brasil em maio de 2021. Além disso, em 31 de maio de 2021, quando se anunciou a realização da Copa América por aqui, mais de 460 mil brasileiros estavam mortos. Em 10 de julho, dia da decisão do torneio, este número aumentou para 532 mil. Outras 72 mil vítimas do desdém.

Jairo Pitolé Sant”Ana é jornalista e sócio da Coxipó Assessoria de Imprensa [email protected]

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