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ARTIGO

Cortina de fumaça 

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A ofensa, escatológica, do alcaide cuiabano à UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), com posterior pedido de desculpas após alguns puxões de orelha, não foi surpresa. Há seis anos, embora em contexto diferente, seu correligionário, o ex-presidente Bolsonaro (cuja vida familiar conturbada e conflituosa veio à tona após a divulgação de mensagens trocadas entre ele e o filho autoexilado nos Estados Unidos) mostrou a mesma indisposição. Estava ele em Dallas, em 15 de maio de 2019, quando taxou manifestantes contra o bloqueio de verbas nas universidades federais “de idiotas úteis e massa de manobra”.

– A maioria, ali, é militante. Não tem nada na cabeça. Se perguntar 7×8 pra ele, não sabe. Se perguntar a fórmula da água, não sabe. Sabe nada. São uns idiotas úteis e imbecis, que estão sendo usados como massa de manobra de uma minoria espertalhona, que compõe o núcleo de muitas universidades federais do país.

Ensino nunca foi a praia do ex-presidente (preferia investir em jet skis e motociatas). Entre as 29 novas universidades federais abertas a partir do ano 2000, apenas uma foi em seu governo. [O recordista é Lula, com 14 (oito no primeiro mandato e seis, no segundo), seguido de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), com cinco; Dilma Rousseff, com quatro; e Michel Temer, o vice virado presidente, com cinco].

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Na verdade, enquanto declarava guerra à educação superior pública e colocava em prática seu “sonho de libertar o Brasil da ideologia nefasta da esquerda”, teria usado as verbas a serem destinadas às universidades como moeda de troca para pagar as emendas do orçamento secreto. E, obviamente, minando-as financeiramente. Segundo o site Sou Ciência, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), no período Bolsonaro (2019-2022), quase R$ 10 bilhões (valores corrigidos em janeiro de 2025) foram retirados dos orçamentos destas instituições. Recursos usados em pagamento de pessoal e encargos sociais; manutenção, benefícios e assistência ao servidor; e assistência estudantil (bolsa transporte, de estudo e auxílio moradia), prejudicando, naturalmente os estudantes de baixa renda.

O maior rombo foi no pagamento de pessoal e encargos sociais. Chegou a R$ 7,3 bilhões no período, refletindo diretamente na redução de novos professores contratados. Mais um efeito deste prejuízo: em dezembro de 2022, o então ministro da Educação informou à equipe de transição do novo governo eleito não haver recursos pagar bolsas a 14 mil médicos residentes e a 100 mil bolsistas da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

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Na verdade, as universidades eram apenas uma das frentes dos ataques bolsonaristas. Segundo matéria publicada em maio de 2019, pela Carta Capital, o ex-presidente teria comentado em um jantar nos EUA: “O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos de desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa”. Faz sentido.

Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista

 

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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