A vida não segue em linha reta, e nem nada ou nem ninguém garantem que o passado não volte ao presente e ameace o futuro. Direto ao ponto: a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado não garante que a ameaça de ditaduras tenha acabado no Brasil. Temos um triste histórico de intervenções militares. É preciso lembrar disso, sempre:
– Parte da sociedade é amante confessa de fuzis e tanques, amor servil ao militarismo. São crentes no mito da superioridade moral dos militares em relação aos civis;
– Existem os espertos de sempre, segmentos empresariais que ganham muito dinheiro durante um regime de exceção e que se lixam para a democracia e para a tragédia nacional da desigualdade social.
– Ou seja, pela primeira vez a extrema direita mostrou e deu ao país uma cara. A extrema direita fez nascer uma liderança de apelo populista autoritário de viés totalitário como Jair Bolsonaro. Ele foi condenado, mas a ideologia extremista continua viva. Sendo assim, se patologias e disfunções da democracia vão e vem ao sabor das oportunidades e dos oportunistas, o combate às ditaduras precisa ser um compromisso cotidiano. Democracia é modo de vida, devemos estar atentos às ameaças que nunca cessam, apenas tomam formas e rostos diferentes ao longo da história do país.
Do Buraco da Memória: reproduzo aqui os últimos apontamentos do meu artigo “Militarismo e religiosidade: os valores do bolsonarismo e a ameaça à democracia comunicada”, publicado pela Revista de Estudos de Comunicação da Universidade da Beira Interior (UBI), de Portugal, no início de 2023. Falo da responsabilidade direta do ex-presidente Jair Bolsonaro, que passou o mandato inteiro insuflando os seguidores contra a democracia; inoculando o veneno social do ódio ao outro e estimulando a ideia da superioridade moral dos militares, justificando a intervenção na vida civil.
Últimos apontamentos.
A responsabilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro está ligada diretamente ao seu papel de mentor da extrema direita. Ele agiu nos quatro anos de governo na comunicação direta com seus seguidores sendo um guia do extremismo. O líder que estimulou, criou e orientou ideias e ações. Até o silêncio assumido logo depois da derrota na eleição foi uma espécie de senha para a sanha golpista. A omissão, como ensina a fenomenologia social, também é uma forma de ação.
A comunicação generalizada e sistemática da desinformação; o discurso de ódio e a aniquilação simbólica dos adversários fazem parte do acervo da memória desta figura pública. O presente emergente convoca um passado que não cessa de se transformar, seja no sentido de tentar negar ou reafirmar responsabilidades pessoais ou de justificar os valores que sustentam a essência e a existência do movimento da extrema direita no Brasil.
Jair Bolsonaro vai liderar a extrema direita sem dificuldades, não há outra liderança forjada neste espectro para fazer sombra a ele. O exercício desse comando não exige esforço físico ou mental, pavor do líder que se mostrou preguiçoso no exercício das tarefas de um presidente da República. Bolsonaro vai continuar a despejar suas mensagens radicais onde ele efetivamente “vive”: nas redes sociais.
O ambiente envenenado das redes bolsonaristas, com a comunicação em grupos de pessoas que dividem as mesmas crenças e sentimentos, é o espaço de excelência de Bolsonaro e dos seus filhos. O pedido da volta da ditadura militar na porta dos quartéis gerou cenas insólitas do mito da superioridade moral dos militares em relação aos civis. Cenas que mostraram também o rebaixamento da religiosidade ao jogo sujo, nada divino, da política dos homens.
Nunca antes na história deste país o nome de Deus foi tão invocado para servir aos interesses pessoais de uma diabólica figura pública do extremismo político, defensor da tortura e da morte dos adversários. Não há ilusões: Bolsonaro e a extrema direita continuarão usando Deus como cúmplice dos seus planos radicais.
Bolsonaro fez um desserviço à democracia brasileira ao trazer o militarismo novamente para centro da vida civil. Estimulando o mito da superioridade moral dos militares. Definitivamente, uma distorção anticonstitucional que ameaça à democracia: as Forças Armadas não são mediadoras; não estão acima das Forças Civis e nem podem ocupar os espaços civis de poder.
O contraponto ao extremismo será sempre político. A defesa dos valores democráticos sabendo lidar com o necessário conflito de ideias que fortalece uma democracia. O que é diferente de tolerar a intolerância manifesta daqueles que usam a violência e pregam a volta da ditadura. E com o novo governo que dê respostas sociais e econômicas para a superação de problemas de sempre do Brasil: a imensa desigualdade social e os preconceitos de todas as ordens. Só assim o grito da extrema direita cairá no vazio, sem poder de reverberação das câmaras de eco digitais e sem o risco da adesão alienada dos segmentos sociais do centro e da direita.
Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e doutor em Comunicação pela UFMG.




















