Escrevi Estiva porque não havia alternativa.
Não foi gesto bonito, nem escolha pensada. Foi urgência. Dessas que ocupam o corpo em silêncio e, quando se percebe, já não deixam saída: ou a palavra vem, ou algo em mim se desfaz.
Há pelo menos uma década esses personagens se aproximam. Primeiro como ruído baixo, quase indistinto. Depois imagem. Depois presença. Foram ficando – insistentes, atravessando minhas bordas. Não sei ao certo de onde vêm. Memória, pesquisa, invenção: nenhuma dessas palavras sustenta sozinha o que aconteceu. Há um resto que escapa. Sempre escapa.
Estiva nasce desse resto.
Não há linha reta aqui. O passado não se entrega inteiro, a lembrança falha, a imaginação contamina tudo. Escrever foi aceitar esse descontrole. Trabalhar com o que falta. Com o que se deforma. Com aquilo que só aparece quando já não dá mais para ignorar.
Esses personagens não me pediram nada – mas também não me deixaram em paz.
Bastião me ensinou outra coisa: a demora.
A recusa da pressa.
O tempo como matéria viva, não como medida.
Há travessias que não se resolvem rápido.
Há caminhos que só aparecem quando o passo desacelera.
O livro está pronto.
Eu ainda não.
O lançamento fica para o fim de abril, talvez maio. Sem calendário rígido. Sem ansiedade performada.
Porque há coisas que precisam maturar no escuro.
Há textos que continuam acontecendo mesmo depois de escritos.
Estiva é um desses.
Um livro que não termina no ponto final.
Que segue, embaixo.
Correndo

Pedro Paulo Gomes Pereira é antropólogo e professor da UNIFESP. Escreve sobre corpos, cidades e poéticas.


























