Beatriz Kushnir reconstrói em Baile de Máscaras a história das prostitutas judias no Brasil. Entre lenda e arquivo, revela cerca de 2 mil mulheres que criaram redes de ajuda mútua para sobreviver ao duplo exílio: do país de origem e da própria comunidade.
Toda cidade tem sua zona. O Rio teve o Mangue. São Paulo, a Boca do Lixo. E toda zona tem sua lenda. A das “polacas” é uma das mais cruas do Brasil: mulheres judias do Leste Europeu, trazidas no final do século XIX e início do XX para a prostituição nas capitais. O termo tornou-se sinônimo de prostituta. A história real, contudo, usa máscara.
Beatriz Kushnir retira essa máscara em Baile de Máscaras: Mulheres Judias e Prostituição – As Polacas e Suas Associações de Ajuda Mútua. O livro, originado de sua dissertação de mestrado, investiga a vida privada de mulheres que eram públicas por ofício e invisíveis por estigma. Kushnir recorreu a arquivos policiais, registros de cemitérios, periódicos e, sobretudo, aos estatutos das associações criadas por essas mulheres para enterrar seus mortos e amparar suas vivas.
O primeiro dado desmonta o mito: não foram dezenas de milhares. Cerca de 2 mil mulheres judias desembarcaram no Brasil para a prostituição entre 1867 e 1930. Número reduzido, mas suficiente para estruturar uma rede internacional de tráfico, a Zwi Migdal, e para fixar-se no imaginário nacional. Grande parte já atuava com prostituição e cafetinagem na Polônia, Rússia e Romênia. Vindas da miséria dos shtetls, dos pogroms e da fome, recebiam a promessa de casamento ou trabalho. O destino era o Mangue.
Kushnir demonstra que a diáspora judaica teve uma face que a comunidade oficial buscou ocultar. As polacas não encontraram acolhimento nas sinagogas nem nas instituições judaicas tradicionais. O estigma religioso era a norma. Nos cemitérios israelitas, prostitutas, cafetinas, cafetões e suicidas eram sepultados junto ao muro. Literalmente à margem. A morte escancarava a exclusão vivida em vida. Se a comunidade não as sepultava, quem o faria?
Elas próprias. A tese central de Kushnir é esta: as polacas organizaram-se. Criaram associações de ajuda mútua como a Chesed Shel Emes (“Caridade Verdadeira”), no Rio, e a Escudo de Abraão, em São Paulo. Tratava-se de irmandades fúnebres. Garantiam sepultamento digno, assistência médica, amparo a órfãos e dote para casamento. Reproduziam a lógica comunitária judaica da qual foram excluídas. Constituíram um gueto dentro do gueto. Uma sinagoga de mulheres públicas.
O livro também desmonta a lenda etimológica. Diz-se que “encrenca” derivaria de ein Krenke (“uma doença”, em iídiche), código usado pelas polacas para alertar sobre clientes sifilíticos. Kushnir ressalva: não há comprovação. Mas a persistência da lenda revela algo importante. Demonstra o domínio dessas mulheres sobre códigos, línguas e redes. Eram poliglotas do submundo. Falavam iídiche, português, espanhol, francês. Necessitavam disso. A clientela incluía diplomatas, parlamentares e pais de família. O Baile de Máscaras do título refere-se a essa vida dupla, ao nome falso, à performance necessária para sobreviver.
Kushnir não romantiza nem condena. “Meu trabalho era a vida privada de mulheres tidas como públicas”, afirma. E a vida privada revela agência. Muitas acumularam patrimônio. Adquiriram imóveis, alforriaram outras mulheres, financiaram a vinda de familiares. Algumas casaram, outras regressaram. Muitas morreram jovens, vítimas de sífilis, tuberculose ou violência. A prostituição no início do século XX representava uma sentença de vida curta. [1]
Baile de Máscaras é relevante por três razões. Primeiro, corrige a escala. Desfaz a hipérbole que transformava toda judia pobre em polaca. Segundo, restitui a historicidade. Retira as mulheres do folclore e as insere no arquivo. Demonstra que possuíam estatuto, ata e livro-caixa. Eram sujeitos políticos de sua própria exclusão. Terceiro, expõe a hipocrisia da sociedade. O mesmo judaísmo que as sepultava no muro frequentava seus bordéis. O mesmo Estado que as registrava como “perigo venéreo” licenciava a zona.
O Brasil recebeu diversas levas de imigrantes. Cada grupo construiu sua epopeia. A das polacas é uma antiepopeia. Não há herói fundador, nem terra prometida. Há o corpo como passaporte e o cemitério no muro como destino. Kushnir evidencia que mesmo na margem da margem se constitui comunidade. A ajuda mútua era o único ritual possível.
O livro mantém a atualidade por não incorrer em moralismo. Faz história. Demonstra que o estigma é estrutural. As polacas acumulavam quatro exclusões: judias, mulheres, pobres e prostitutas. Diante disso, restavam apenas a máscara e a associação. O baile era a vida. A máscara, a condição para dançar.
Cem anos depois, o baile ganhou jatinho. Entre 2021 e 2022, a imprensa noticiou festas de luxo em Trancoso, na Bahia. Os eventos ficaram conhecidos como “A Noite das Astronautas”, denominação que circulou entre frequentadores e nos jornais. Ocorriam em uma mansão avaliada em centenas de milhões de reais, com segurança reforçada e proibição de celulares. A lista de convidados incluía empresários, figuras do mercado financeiro e autoridades dos Três Poderes. O TCU instaurou uma apuração para verificar o eventual uso de dinheiro público ou conflito de interesses. A Polícia Federal abriu um inquérito para investigar a suspeita de tráfico internacional de pessoas e exploração sexual envolvendo as mulheres trazidas para as festas.
A comparação é estrutural. As polacas atravessavam o Atlântico de navio, aliciadas pela Zwi Migdal, sob promessa de casamento. Desembarcavam no Mangue. Um século depois, mulheres embarcam em jatinhos executivos para Trancoso. Segundo relatos publicados, muitas eram modelos do Leste Europeu – Ucrânia, Rússia, Belarus e Romênia. A promessa atual é de “presença VIP”, “networking” e “experiência”. Após o evento, retornam de avião.
Altera-se a logística, não a economia do corpo. Três elementos permanecem:
1. Fronteira: A mulher é deslocada para o território do dinheiro e do poder.
2. Máscara: Em 1900, era o nome falso e o código em iídiche. Em 2022, é o NDA (acordo de confidencialidade), a proibição de celulares e o conteúdo efêmero.
3. Muro: As polacas eram sepultadas no muro do cemitério. As mulheres do jatinho, quando expostas, são confinadas ao muro da opinião pública sob o julgamento de que “foi escolha”.
A diferença crucial: as polacas permaneceram. Criaram a Chesed Shel Emes porque a comunidade oficial as baniu e o Brasil não as repatriou. Necessitavam de sepultura, de assistência médica, de dote. As mulheres do jatinho partem. Não constituem associação porque o retorno está garantido. A vulnerabilidade é situacional, não permanente. A Zwi Migdal atuava na frouxidão legal da época. Os jatinhos operam na zona cinzenta dos “jobs de presença”.
O Brasil segue empurrando para o muro quem não integra a imagem oficial da nação. Kushnir, ao estudar as mulheres de cem anos atrás, oferece a chave para compreender a rota atual. O Leste Europeu segue exportando corpos femininos. Substituiu-se o navio pelo jatinho. O baile de máscaras persiste. Quando o TCU apura o gasto público e a PF investiga o tráfico, evidencia-se que a fronteira entre o público e o privado foi transposta. E o corpo, mais uma vez, converteu-se em passaporte – agora com bilhete de volta.
José Antônio Borges Pereira é Procurador de Justiça do Estado de Mato Grosso e titular da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online


























