Há momentos em que, ao comparar o comportamento da extrema direita brasileira, sinto-me como se tivesse voltado no tempo há cerca de um século, entre 1926 e 1930, ainda na República Velha, quando o Brasil foi governado por Whashington Luiz, a quem foi atribuído a frase “a questão social é caso de polícia”. Exemplos não nos faltam. Quem não se lembra da chacina ordenada pelo carioca Cláudio Castro em outubro do ano passado, nos complexos da Penha e do Alemão, que deixou entre 121 e 132 mortos, incluindo policiais? Ou que a polícia paulista de Tarcísio de Freitas, em apenas dois anos (24/25), produziu 1.648 mortes?
A questão social, para este segmento, não só continua sendo tratada como caso de polícia como é estimulada. Analisemos dois casos: a misoginia e a redução da jornada semanal de trabalho (traduzindo: fim da escala 6×1). Com relação à misoginia, são contra o Projeto de Lei 896/2023, que a equipara a crimes de racismo, alegando (espalham essa fake News em redes sociais) que discordâncias entre homens e mulheres poderiam ser criminalizadas, sugerindo “prisão por comportamento”.
Enquanto isso, desde que o feminicídio, efeito letal da misoginia, foi tipificado como crime, a morte de mulheres vem aumentando anualmente. Começou com 449, em 2015, e fechou com 2025 com 1.568. No total, 13.342 tiveram suas vidas tiradas em 11 anos. Neste mesmo período, 743.098 foram estupradas. Um caso emblemático ocorreu na noite da passagem de 2025 para 2026, no Rio de Janeiro, quando uma jovem de 17 anos foi estuprada por cinco jovens (quatro adultos entre 19 e 19 anos e adolescente de 17 anos. Um deles tem como pai um ex subsecretário (ironia) de Governança, Compliance e Gestão Administrativa do já citado Cláudio Castro.
Passemos à jornada de trabalho. Um exemplo: o deputado federal pelo PL paulista Marcos Feliciano, pastor evangélico pentecostal, fundador da Igreja Assembleia de Deus Catedral do Avivamento, dito defensor da pauta cristã, não poupou adjetivos para demonizar o fim da escala 6X1 (seis dias de trabalho e um de descanso). Chamou-a de excrescência (tumor, inútil, aberração) e defendeu o trabalho até à exaustão (para a grande maioria dos trabalhadores, claro. A parcela que “percebe” entre um e três salários-mínimos, abaixo de mil dólares mensais, o que nos Estados Unidos significa estar abaixo da linha de pobreza). Ele e seus pares da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados sequer deixaram a proposta ser analisada, ao fazerem um pedido de vista coletivo. Prometem até o uso do regimento da casa para impedir sua discussão.
P.S.: E o candidato Flávio Bolsonaro, hein? Segundo o noticiário, para mostrar que há fome no Governo Lula, usou imagens de pessoas vasculhando um caminhão de lixo a procura de restos de comida. Se deu mal, porque as imagens são de 2021, ano em que o pai dele (Jair) era o presidente. Que patacoada!
Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

























