No papel, era mais uma apresentação técnica sobre o futuro urbano de Cuiabá. Na prática, o evento no Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso ganhou contornos de espetáculo, algo como um ensaio de stand-up involuntário. Coube ao presidente da corte, conselheiro Sérgio Ricardo, abrir os trabalhos com suas já consagradas historietas. Consagradas não exatamente pela originalidade, mas pela impressionante capacidade de reaparecerem como se fossem inéditas, evento após evento, com a confiança de quem acredita estar sempre estreando.
Enquanto isso, ao seu lado, o prefeito Abílio Brunini protagonizava uma cena paralela digna de atenção. Sentado, aparentemente concentrado, escrevia ou desenhava com afinco. Foi o suficiente para que Sérgio Ricardo, atento ao menor sinal de distração ou oportunidade, resolvesse compartilhar a descoberta com a plateia: “o prefeito está aqui fazendo um belo desenho”. A plateia, já devidamente treinada nos códigos daquele ambiente, reagiu como se estivesse diante de um momento espontâneo e raríssimo.
O clímax veio com a exibição da obra. O conselheiro, agora também curador improvisado, tomou o papel em mãos e apresentou ao público: “lindo desenho, pode assinar e leiloar. Desenho de arquiteto”. Naquele instante, o plano diretor de Cuiabá ganhou um concorrente à altura, uma peça artística nascida ali, entre uma pauta técnica e uma piada reciclada. Faltou apenas um martelo de leiloeiro para completar a cena.
Abílio, por sua vez, reagiu como qualquer pessoa que percebe ter virado parte do espetáculo sem aviso prévio: sorriso amarelo, bochechas avermelhadas e uma tentativa silenciosa de desaparecer na cadeira. Não era exatamente o protagonismo esperado para quem foi apresentar um dos documentos mais importantes para o planejamento urbano da capital. Mas, convenhamos, poucos prefeitos podem dizer que tiveram seu talento artístico revelado em pleno tribunal.
Ao final, fica a dúvida que paira no ar: se o desenho realmente for a leilão, o próprio Tribunal de Contas irá chancelar o valor da obra? Em tempos de fiscalização rigorosa, seria interessante ver um laudo técnico avaliando traços, perspectiva e potencial de mercado. Afinal, entre a seriedade institucional e o improviso performático, talvez este tenha sido o momento mais autêntico do evento, ainda que não exatamente pelo motivo planejado.
Marina Duarte é servidora pública e analista de Gestão Pública

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