
Pela primeira vez, o projeto MapBiomas calculou a quantidade de fragmentos de vegetação nativa no Brasil e identificou um avanço acelerado da fragmentação, com reflexos em Mato Grosso, estado que reúne três biomas ameaçados: Amazônia, Cerrado e Pantanal. Entre 1985 e 2024, o número de áreas isoladas de vegetação no território mato-grossense saltou de 80.340 para 531.039, aumento de 560%.
Os dados fazem parte do módulo de Degradação do MapBiomas, atualizado nesta quarta-feira (13.05), e indicam que, embora a vegetação nativa ainda exista, ela está cada vez mais dividida em porções menores e isoladas, o que amplia a vulnerabilidade ambiental.
No Brasil, o total de fragmentos cresceu de 2,7 milhões em 1986 para 7,1 milhões em 2023. O aumento é interpretado pelos pesquisadores como um sinal de pressão sobre os ecossistemas, já que áreas contínuas vêm sendo recortadas por desmatamento, expansão agropecuária, urbanização e abertura de estradas.
Em Mato Grosso, o avanço foi contínuo ao longo das últimas quatro décadas. Em 1990, o estado já contabilizava 190 mil fragmentos; em 2000, eram 374 mil; e, em 2010, 465 mil. A partir de então, o crescimento desacelerou, mas manteve tendência de alta até chegar ao patamar atual.
A fragmentação ocorre quando áreas contínuas de vegetação são divididas em partes menores. Esse processo potencializa os impactos do desmatamento, mesmo quando a cobertura vegetal não é totalmente removida.
“Quanto menor for o tamanho dos fragmentos de vegetação nativa, maior será a suscetibilidade à degradação”, afirma Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e coordenador do módulo. Segundo ele, a redução das áreas compromete a biodiversidade, aumenta o risco de extinções locais e dificulta a circulação de espécies entre os remanescentes.
O levantamento também aponta queda significativa no tamanho médio dos fragmentos no país. Em 1986, cada área tinha, em média, 241 hectares. Em 2023, esse número caiu para 77 hectares, redução de 68%. Parte da vegetação nativa brasileira já está concentrada em fragmentos pequenos: até 5% ocupa áreas inferiores a 250 hectares.
Todos os biomas registraram aumento da fragmentação nas últimas décadas. Pantanal e Amazônia lideram o crescimento proporcional, com altas de 350% e 332%, respectivamente, seguidos por Pampa, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica.
Amazônia mato-grossense especialmente ameaçada
Na Amazônia, a redução do tamanho médio dos fragmentos foi ainda mais acentuada, passando de 2.727 hectares para 492 hectares no período analisado. No Pantanal, a queda foi de 80%.
Na Amazônia Legal, o monitoramento detectou distúrbios no dossel, a camada superior da floresta, em 7% da cobertura florestal entre 1988 e 2024. O corte seletivo de madeira aparece como uma das principais causas, concentrado especialmente em Mato Grosso e Pará, que juntos respondem por 83,5% da área afetada. Dos dez municípios com maior exploração, seis estão em território mato-grossense.
Os dados, segundo o MapBiomas, devem orientar políticas públicas e ações de conservação. O Brasil assumiu o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030.
“O monitoramento da degradação complementa o do desmatamento. Muitas vezes, a degradação pode ser revertida, mas, se persistir, compromete a recuperação natural das áreas”, afirma Eduardo Vélez, pesquisador do projeto.

























