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ARTIGO

“Estranha forma de vida”

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Mesmo que não queiramos, somos um pouco portugueses. Camões ecoa em nossos corações: “O amor é ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente…” Amanhecia em Macondo e estava eu a contemplar a lua e a ouvir a magnífica Amália Rodrigues (1920 / 1999), a maior fadista portuguesa, quando resolvi escrever este artigo para apresentar às novas gerações essa guerreira ambígua e intrigante. Ao ser a voz da ditadura de Salazar e, ao mesmo tempo, esconder e financiar os camaradas comunistas, Amália é uma incógnita.

Nascida em uma família humilde desde cedo precisou trabalhar para ajudar nas despesas domésticas; Amália encantou o mundo e tornou-se a “voz de Portugal”: atriz, escritora, compositora e, sobretudo, cantora.  Não teve filhos; todavia, deixou em testamento que fosse criada a Fundação Amália Rodrigues que desenvolve e apoia atividades culturais, educativas, artísticas e de solidariedade social, assegurando a conservação e dinamização da Casa-Museu Amália Rodrigues. Amália levou o fado a palcos internacionais, conquistando plateias em Paris, Nova Iorque e Tóquio. Com isso, não apenas popularizou o gênero musical mas também deu ao mundo uma imagem sofisticada e profunda da cultura lusitana.

No entanto, a trajetória de Amália Rodrigues não se resume ao brilho artístico; ela também esteve envolta em ambiguidades políticas. Durante a ditadura de Salazar, sua projeção internacional foi utilizada como vitrine cultural do Estado Novo, o que lhe rendeu acusações de proximidade com o poder. Ao mesmo tempo, Amália mantinha relações cordiais com figuras ligadas ao Partido Comunista Português, apoiando discretamente causas e artistas perseguidos pelo regime. Essa dualidade — vista por alguns como oportunismo e por outros como sobrevivência num contexto autoritário — revela a complexidade de sua posição: uma artista que, ao mesmo tempo em que era celebrada pelo governo, também se tornava referência para setores da oposição. Essa ambiguidade reforça a ideia de que Amália, mais do que uma cantora, foi uma figura que navegou entre mundos opostos, sem nunca se deixar aprisionar por um rótulo político definitivo.

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Amália Rodrigues é uma figura ímpar da cultura portuguesa, não só pela sua voz inconfundível como também pela forma como encarnou as contradições de um país em transformação. Sua arte foi capaz de unir gerações, atravessar fronteiras e resistir às leituras simplistas de sua posição política. A ambiguidade que marcou sua relação com o poder e com a oposição não diminui sua grandeza; pelo contrário, revela a complexidade de uma artista que se manteve fiel ao fado como expressão do sentimento coletivo português e universal. Foi, acima de tudo, intérprete de sentimentos universais saudade, dor, esperança que ecoam ainda hoje.  E talvez nada traduza melhor essa dimensão humana do que os versos de um dos seus fados mais emblemáticos, “Estranha forma de vida”: Foi por vontade de Deus / Que eu vivo nesta ansiedade / Que todos os ais são meus / Que é toda minha a saudade / Foi por vontade de Deus // Que estranha forma de vida / Tem este meu coração / Vives de forma perdida / Quem lhe daria o condão? Que estranha forma de vida // Coração independente / Coração que não comando / Vives perdido entre a gente/ Teimosamente sangrando / Coração independente // E eu não te acompanho mais / Para deixa de bater / Se não sabes aonde vais / Porque teimas em correr /Eu não te acompanho mais”

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Sérgio Cintra é professor de Linguagens e servidor do TCE- MT.

Sérgio Cintra

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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