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ARTIGO

Por que “farmar aura” incomoda tanta gente?

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O recente debate sobre um campeonato de “farmar aura” em Cuiabá trouxe à tona uma discussão que vai muito além de uma simples brincadeira da internet. Para muitos, a ideia parece infantil, sem sentido ou até constrangedora. Para outros, trata-se apenas de uma forma de diversão entre pessoas que compartilham o mesmo interesse. A questão mais interessante, porém, não é se a atividade é boa ou ruim, mas por que ela desperta tanto incômodo em quem nem sequer pretende participar dela.

Talvez a resposta esteja na tendência que temos de julgar o valor das atividades a partir dos nossos próprios gostos. Se algo não desperta nosso interesse, rapidamente o classificamos como inútil. Mas esse conceito é profundamente relativo. Para quem não gosta de futebol, passar duas horas assistindo a uma partida pode parecer uma enorme perda de tempo. Colecionar e trocar figurinhas, participar de um fã-clube de K-pop, jogar videogame, fazer cosplay ou passar horas pescando também podem parecer atividades sem propósito para quem observa de fora. Ainda assim, milhões de pessoas encontram nessas práticas lazer, amizade, pertencimento e felicidade.

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O problema começa quando deixamos de dizer “eu não gosto” para afirmar “isso não deveria existir”. Existe uma diferença importante entre fazer uma crítica e negar legitimidade a uma manifestação cultural ou recreativa. Em uma sociedade plural, não precisamos compreender ou admirar todos os interesses das outras pessoas. Precisamos apenas reconhecer que elas têm o direito de cultivá-los, desde que não prejudiquem ninguém e respeitem as regras de convivência.

Essa lógica vale para praticamente qualquer grupo. Torcidas organizadas, comunidades de ciclistas, clubes de carros antigos, grupos de dança, encontros de RPG, fãs de séries, praticantes de esportes pouco conhecidos e tantas outras “tribos” nasceram justamente porque pessoas descobriram interesses em comum. Muitas dessas atividades também já foram vistas como bobagem ou perda de tempo. Com o passar dos anos, algumas ganharam respeito e reconhecimento, outras continuam sendo nichos. Nenhuma delas, porém, depende da aprovação de quem está de fora para fazer sentido a quem participa.

É legítimo que alguém considere um campeonato de “farmar aura” uma brincadeira sem graça. O que merece cuidado é transformar esse julgamento subjetivo em critério para restringir uma atividade que, por si só, não causa danos a terceiros.

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O debate diz menos sobre um meme da internet e mais sobre nossa capacidade de conviver com as diferenças. O respeito não exige concordância. Podemos achar uma atividade completamente sem sentido e, ao mesmo tempo, defender o direito de outras pessoas se divertirem com ela. Precisamos manter sempre o respeito à liberdade, à diversidade de interesses e à convivência entre pessoas que escolhem viver a vida de maneiras diferentes.

Bruno Moreira (@obrunocos) é publicitário e assessor de comunicação e marketing

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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