
O uso de diferentes linguagens para comunicar conhecimento acadêmico ganha destaque em uma resenha publicada em 2026 pela revista científica Medijske Studije/Media Studies. Confira a tradução em português neste link. O texto analisa “AGON: Constructions of Democracy”, ensaio cinematográfico acadêmico de Ali Minanto, Nico Carpentier e Jhon Sany Purwanto que articula teoria, cinema e pesquisa baseada em artes para discutir como a democracia é construída, disputada e ameaçada.
Assinada pelo pesquisador Martin Bubanović, do Institute of Communication Studies and Journalism da Charles University, a resenha chama atenção para a capacidade do filme de transformar conceitos teóricos complexos em uma experiência que combina argumentação, imagens, sons, personagens e emoção.
Segundo Bubanović, a contribuição particular de “AGON” está justamente na adoção da pesquisa baseada em artes. O autor avalia que o formato torna conceitos das teorias do discurso e da democracia mais acessíveis, ao mesmo tempo em que estimula diferentes possibilidades de interpretação.
A produção toma como referência a teoria do discurso de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe e trabalha, entre outros conceitos, com a democracia como um “significante vazio”, cujo significado é permanentemente objeto de disputas políticas e sociais.
O filme também mobiliza a perspectiva do novo materialismo e a noção de “nó discursivo-material”, desenvolvida por Carpentier, que propõe compreender discurso e materialidade como dimensões entrelaçadas e capazes de se condicionar mutuamente.
Para o professor e pesquisador Pedro Pinto de Oliveira, que atua nos programas de pós-graduação em Comunicação e em Estudos de Cultura Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a experiência de Carpentier demonstra as possibilidades abertas pela comunicação multimodal para a produção e circulação do conhecimento.
“O professor Nico Carpentier é uma referência mundial em comunicação multimodal e de discussões sobre comunicação e democracia. O seu filme é uma bela exploração estética para tratar de questões tão caras hoje para a sociedade. O entrelaçamento da ciência, comunicação e arte é um caminho potente para a comunicação acadêmica entre os pares e para outros públicos”, afirma Oliveira, que também é vice-coordenador do Grupo de Trabalho de Pesquisa em Comunicação Multimodal da Associação Internacional de Pesquisa em Mídia e Comunicação (IAMCR).
Democracia em imagens, sons e personagens
“AGON” organiza sua discussão em torno de quatro eixos: os elementos centrais da democracia, as disputas em torno de seu significado, as condições necessárias para sua existência e as ameaças que podem comprometer regimes democráticos.
Em vez de apresentar esses temas apenas por meio de exposição teórica, o filme recorre a personagens e situações simbólicas. Uma das figuras centrais é a “mulher com os balões”, utilizada como representação da própria democracia.
Ao longo da produção, a personagem atravessa ambientes institucionais e cotidianos, como parlamento, tribunal, residência, canteiro de obras e espaços públicos. Os cenários, a música, a montagem e as interações entre os personagens ajudam a materializar conceitos como representação, participação, Estado de Direito, comunidade política, concentração de poder e violência.
Na avaliação apresentada pela resenha, a estratégia permite que conceitos encontrados em trabalhos acadêmicos de diferentes graus de complexidade sejam aproximados da experiência cotidiana e da cultura popular.
O filme também aborda riscos para a democracia, entre eles a frustração provocada pelo não cumprimento de promessas democráticas, a exclusão de determinados grupos da comunidade política, a apatia e a baixa participação, o uso da violência e a recentralização do poder.
Apesar dessas ameaças, “AGON” termina enfatizando que conflitos e disputas não são necessariamente sinais de fracasso democrático. Pelo contrário: podem constituir parte fundamental da própria democracia, desde que não eliminem as condições que permitem a permanência da disputa política.
Confira a obra na íntegra:
* Safira Campos é jornalista. Mestra em Comunicação e Poder pela UFMT e doutoranda em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM.

























