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PPGECCO UFMT

Tese mostra como lógica de mercado transforma sustentabilidade em ativo empresarial

Pesquisa analisa como lógica de mercado transforma compromissos socioambientais em reputação, acesso a crédito e vantagem competitiva.

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(Foto: TV Brasil)

Uma tese de doutorado desenvolvida na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) aponta que o conceito de sustentabilidade tem sido apropriado pela lógica financeira e pode funcionar como instrumento de legitimação empresarial sem necessariamente provocar mudanças estruturais na proteção do meio ambiente e dos direitos socioambientais.

A pesquisa é de Henriqueta Fernanda Chaves Alencar Ferreira Lima, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea (PPGECCO) da UFMT. O trabalho investiga como o significado de sustentabilidade se transforma quando passa a ser definido por critérios como ratings, certificações, índices e relatórios ESG.

“A palavra ‘sustentável’ conserva a aura ética herdada da ecologia, mas passou a designar gestão de risco financeiro”, explicou Henriqueta em entrevista ao PNB Online.

Segundo a pesquisadora, essa lógica difere da sustentabilidade prevista no ordenamento jurídico brasileiro, em que a proteção ambiental é uma obrigação. “A sustentabilidade que o mercado proclama não é a sustentabilidade que o ordenamento jurídico ordena”, resumiu.

A tese analisou grandes grupos empresariais brasileiros e comparou discursos corporativos de sustentabilidade com documentos públicos, fiscalizações, estudos independentes e registros sobre impactos socioambientais. O levantamento identificou empresas com estruturas robustas de ESG, participação em índices de sustentabilidade e compromissos ambientais internacionais, mas com problemas persistentes em suas atividades ou cadeias produtivas.

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Para Henriqueta, a questão não se resume a casos individuais. “O controle alcança os elos mais visíveis e exclui os mais críticos. Os próprios atores do mercado definem e validam os critérios. E as metas futuras geram reputação no presente”, afirmou ao PNB Online.

Além do greenwashing

Henriqueta Fernanda Chaves Alencar Ferreira Lima (Foto: TJMT)

Uma das principais contribuições da tese é o conceito de “Transmutação de Significação”. A expressão descreve o processo pelo qual um termo ligado originalmente à ética ambiental é apropriado pela racionalidade do mercado, mantendo seu prestígio mesmo quando passa a representar práticas diferentes.

Henriqueta afirma que o conceito é mais amplo que o greenwashing, normalmente associado a publicidade ou informações ambientais enganosas.

“O greenwashing é a manifestação visível: a propaganda enganosa, o relatório maquiado. A transmutação é o mecanismo de fundo”, explicou.

A pesquisadora identifica uma cadeia em que investidores, compradores e agências de rating pressionam empresas, que respondem com relatórios, metas e compromissos. Auditorias, índices e selos privados validam essas respostas, que podem se transformar em reputação, acesso a mercados e crédito mais barato. O problema ocorre quando as práticas que inicialmente provocaram a pressão permanecem.

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Impactos para comunidades

Segundo a tese, essa lógica também pode deixar em segundo plano aspectos que não são facilmente transformados em métricas, como impactos sobre comunidades, modos de vida tradicionais e fornecedores indiretos.

“O território entra no relatório como risco ao negócio, e não como titular de direitos”, afirmou Henriqueta.

A pesquisadora também chama atenção para metas ambientais de longo prazo que geram benefícios reputacionais imediatamente, embora possam ser abandonadas antes de serem cumpridas. Entre as propostas apresentadas pela tese estão auditoria pública e independente de relatórios ESG, fortalecimento dos órgãos de fiscalização, maior participação das comunidades afetadas e responsabilização por práticas de greenwashing.

O trabalho também propõe a criação de um cadastro público de insustentabilidade empresarial, inspirado na Lista Suja do trabalho escravo, e a ideia de “retrocesso ambiental empresarial”, segundo a qual compromissos ambientais anunciados ao mercado não poderiam ser simplesmente abandonados sem responsabilização.

A tese “Sustentabilidade de mercado e a falsa modulação do comportamento empresarial brasileiro” foi defendida em 9 de outubro de 2026, sob orientação da professora Débora Cristina Tavares. O trabalho foi aprovado pelo PPGECCO da UFMT.

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