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OPERAÇÃO HERMES

Garimpos de MT que usaram mercúrio ilegal movimentaram R$ 537 milhões em ouro

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Quatro Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs) — F.D’Gold, Fênix, Coluna e Unida — registraram a compra de R$ 537 milhões em ouro extraído de áreas de garimpo em Mato Grosso onde o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) flagrou o uso e armazenamento irregular de mercúrio. As operações, realizadas entre janeiro de 2023 e março de 2026, somaram a aquisição de 1,3 tonelada do metal precioso.

Os dados fazem parte de uma investigação jornalística publicada pela Repórter Brasil, que cruzou as coordenadas geográficas de autos de infração e apreensões do Ibama com os registros de Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) e guias de comercialização mantidos pela Agência Nacional de Mineração (ANM). As bases originais foram analisadas pela organização Greenpeace e validadas pela reportagem.

A utilização descontrolada do mercúrio representa um grave risco socioambiental, provocando a contaminação de bacias hidrográficas, peixes e ecossistemas, além de acarretar sérios danos à saúde das populações locais e comunidades tradicionais.

As autuações ambientais apontadas no levantamento concentram-se em áreas de mineração nos municípios de Aripuanã e Poconé:

Aripuanã (MT): O maior volume do metal adquirido veio de uma área explorada pela Cooperativa de Mineradores e Garimpeiros da Região de Aripuanã (Coopemiga). Em dezembro de 2022, na Operação Hermes (deflagrada conjuntamente pela Polícia Federal e pelo Ibama), a cooperativa foi autuada por utilizar mercúrio irregular na produção de 147,8 kg de ouro e prestar informações falsas ao Ibama. Na ação, foram apreendidos 39,4 kg da substância. Entre janeiro de 2023 e março de 2026, a DTVM F.D’Gold declarou a compra de 1,1 tonelada de ouro oriunda dessa localidade, totalizando R$ 432 milhões.

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Poconé (MT) – Adão Afonso Roduí Mineração: Em novembro de 2023, fiscais apreenderam 72,2 kg de mercúrio sem comprovação de origem legal na mineradora. A partir do mês seguinte, as DTVMs Fênix, Coluna e Unida adquiriram 62,7 kg de ouro extraídos do local, movimentando R$ 33,1 milhões.

Poconé (MT) – Jonas Gimenez Rodrigues Mineração: Em junho de 2025, a empresa foi autuada por manter 639,7 gramas de mercúrio sem procedência legal e operar em desacordo com licença ambiental. Entre julho de 2025 e março de 2026, Fênix e Coluna declararam a compra de 118,3 kg de ouro da área, avaliados em R$ 71,9 milhões.

Alerta das autoridades e “estoque zero” de mercúrio legal

Conforme revelado pela Repórter Brasil, o Ibama e o Ministério Público Federal (MPF) alertam que não existe atualmente estoque lícito de mercúrio no Brasil. A última importação legal do insumo no país ocorreu em março de 2017 (1,8 tonelada).

Segundo nota técnica do MPF, o cruzamento da produção nacional de ouro com as importações formais demonstra a incompatibilidade dos números, levando à conclusão de que qualquer empreendimento que utiliza mercúrio no país atualmente se vale de produto contrabandeado ou de origem ilícita. Relatórios de inteligência apontam que a fronteira de Mato Grosso com a Bolívia é uma das principais rotas de entrada do produto ilegal na América do Sul.

Diante do cenário, o procurador da República André Porreca ressaltou que as instituições financeiras compradoras têm o dever de reforçar a checagem sobre a cadeia de fornecedores. “Como primeira compradora, a DTVM deveria fiscalizar a legalidade da extração. É aí que a gente tem que atuar para impedir a entrada do ouro de origem ilegal no mercado”, afirmou o procurador, ponderando que administradores podem responder criminalmente caso seja provado o conhecimento das irregularidades.

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Governador de MT também já foi acusado de usar mercúrio ilegal

O debate sobre a cadeia contaminada do mercúrio no estado não é novo e expõe fragilidades na própria gestão pública. O ex-governador do estado de Mato Grosso, Mauro Mendes (União) também já figurou no centro de denúncias e acusações envolvendo o uso de mercúrio de procedência ilegal em operações e incentivos ao setor garimpeiro.

Ele foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF), sob a acusação de ser “sócio fantasma” de uma mineradora, em nome do seu filho, que utilizou garimpo ilegal. O filho de Mauro, Luis Antônio Taveira Mendes, foi alvo da Operação Hermes.

Outro lado

Em resposta à Repórter Brasil, a Adão Afonso Roduí Mineração e a Mineração Avante alegaram que o uso de mercúrio estava amparado por licença e cadastrado no Ibama, informando ainda que migraram para métodos de beneficiamento sem a substância.

A DTVM Unida informou que exige comprovação da origem do ouro e que analisa seus fornecedores, estando resguardada pelo sigilo financeiro. A Associação Nacional do Ouro (Anoro) alegou impedimento legal para comentar casos específicos. A Jonas Gimenez Rodrigues Mineração havia informado anteriormente que recorreu das autuações. As DTVMs F.D’Gold, Fênix e Coluna, bem como a Coopemiga, não responderam aos questionamentos.

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