Pesquisar
Close this search box.
ARTIGO

Angústia e liberdade

Publicidade

A liberdade pode ser considerada a experiência humana mais almejada e, paradoxalmente, a mais temida. Ao longo de séculos, a filosofia buscou emancipar o ser humano das determinações impostas pela natureza, pela religião e pelo poder. Contudo, uma indagação persiste como inquietante: qual é a consequência ao se descobrir, por fim, que a escolha é viável?

Kierkegaard, pensador dinamarquês do século XIX, elaborou uma das reflexões mais inquietantes acerca da existência: ‘A angústia é a vertigem da liberdade’. Essa afirmação, em ‘O Conceito de Angústia’, indica que a liberdade não se configura unicamente como uma conquista. Trata-se, igualmente, de um abismo no qual a consciência vivencia sua própria fragilidade.

Visualize uma pessoa à beira de um abismo. O temor emerge da eventualidade de uma queda. Contudo, a angústia origina-se da consciência de que também existiria a possibilidade de se entregar voluntariamente. Não é apenas a ameaça externa que causa inquietação, mas também a constatação de que a vontade abrange possibilidades imprevisíveis.

Essa diferenciação altera a percepção acerca da condição humana. O medo apresenta um objeto específico; a angústia aparece diante da eventualidade. O ser humano não padece apenas em função dos eventos que se desenrolam, mas igualmente por causa das possíveis consequências de suas decisões.

Leia Também:  A Igreja no Brasil 2026 – 2022 e a Pastoral de Conjunto

Em Aristóteles, a concepção de liberdade moral é compreendida por meio da deliberação racional e do desenvolvimento das virtudes. Kierkegaard, entretanto, transfere a questão para a dimensão interna. Antes de realizar uma escolha acertada, vivencia-se o dilema de constatar que nenhuma decisão erradica totalmente a incerteza.

Séculos mais tarde, Jean-Paul Sartre aprofundaria essa visão ao afirmar que o indivíduo está irremediavelmente destinado à liberdade. A ausência de uma escolha também representa uma opção. A vida não proporciona uma solução formal e definitiva que possa isentar da responsabilidade pessoal.

Contudo, existe uma distinção essencial: enquanto Kierkegaard vincula a angústia à possibilidade, ao pecado e à existência diante de Deus, Sartre a entende sob a ótica de uma liberdade desprovida de um fundamento divino previamente determinado. Em ambas as situações, a liberdade deixa de ser apenas a ausência de impedimentos e se transforma em responsabilidade.

A multiplicidade de oportunidades, que deveria aumentar a felicidade, frequentemente culmina em ansiedade; não existe singularidade. À medida que aumenta o número de opções disponíveis, intensifica-se o receio de uma escolha errônea. A liberdade converte-se em uma exigência de eficácia.

Leia Também:  Confiança é o começo da autonomia

Nesta dinâmica, Byung-Chul Han reconhece uma sociedade na qual a exploração não está apenas subordinada a imposições externas. O ser no mundo transforma-se em gestor e controlador de sua própria condição de vida. A promessa de ser capaz de realizar tudo vem acompanhada do sentimento de jamais fazer o bastante.

Considere que a angústia atual pode originar-se dessa contradição: há liberdade formal para optar, porém nem sempre estão disponíveis as condições materiais, emocionais e sociais necessárias para efetivar tais escolhas. A liberdade, ao ignorar as desigualdades, pode transformar-se em um privilégio disfarçado de responsabilidade coletiva.

Consequentemente, a verdadeira tragédia não se encontra em experimentar a vertigem diante do abismo, mas em abdicar da liberdade para jamais precisar confrontá-lo, uma vez que viver implica permanecer diante de trajetórias que não asseguram resultados.

É por aí…

Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) é da Academia Mato-Grossense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – IHGMT. ([email protected]).

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

Compartilhe essa Notícia

Publicidade

Publicidade

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com o Deputado Estadual Wilson Santos

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com Valdinei Mauro de Souza