Quando um jovem sofre um infarto, é comum ouvir: “Mas ele era tão novo.” A pergunta mais importante, porém, talvez seja outra: há quanto tempo aquela doença já estava sendo construída?
O infarto pode acontecer em poucos minutos. A doença que levou até ele, muitas vezes, levou anos. Essa diferença muda completamente a forma como precisamos conversar sobre prevenção cardiovascular.
Porque o infarto raramente começa na manhã em que surge a dor no peito. Em grande parte dos casos relacionados à aterosclerose, ele é o capítulo agudo de uma história silenciosa que vinha sendo escrita diariamente: pressão arterial elevada, colesterol aterogênico, cigarro ou vape, obesidade visceral, diabetes ou resistência à insulina, sedentarismo, sono inadequado, predisposição genética e outros fatores que, isoladamente ou combinados, agridem progressivamente as artérias.
É por isso que costumo dizer aos meus pacientes: ” O infarto não acontece no dia do infarto.” Ele pode ter começado muitos anos antes. Ser jovem não significa estar protegido
Um dos erros mais perigosos da prevenção cardiovascular é associar doença coronariana exclusivamente ao envelhecimento. A evidência atual aponta justamente para a necessidade de olharmos mais cedo.
Uma análise publicada em 2025 mostrou que quase um quarto dos primeiros infartos estudados ocorreu em adultos com 54 anos ou menos. Entre esses pacientes jovens, obesidade e tabagismo continuavam muito presentes, acompanhados de fatores tradicionais e não tradicionais de risco.
Em outra grande análise de adultos hospitalizados por primeiro infarto, mais de 90% dos pacientes jovens apresentavam pelo menos um fator de risco modificável. Entre os indivíduos de 18 a 44 anos, destacavam-se tabagismo, alterações do colesterol e hipertensão arterial.
Isso é fundamental. Não significa que todos os infartos possam ser previstos ou evitados. Existem causas menos comuns e mecanismos específicos como dissecção espontânea de coronária, vasoespasmo, anomalias coronarianas e algumas situações relacionadas a drogas que merecem investigação individualizada, sobretudo em pacientes muito jovens e em mulheres.
Mas significa que, em grande parcela dos casos, havia sinais de risco antes do evento. O problema é que muitas vezes ninguém estava olhando. A artéria não conhece a sua idade. Ela conhece a sua exposição. Essa talvez seja a ideia mais importante de todo este artigo.
Durante muito tempo, a medicina cardiovascular se concentrou excessivamente no risco de ter um evento nos próximos dez anos. Essa abordagem continua útil, mas tem uma limitação evidente quando falamos de pessoas jovens.
Um homem de 35 anos pode apresentar baixo risco estatístico de infarto nos próximos dez anos simplesmente porque tem 35 anos. Isso não significa que suas artérias estejam saudáveis.
A diretriz norte-americana de dislipidemia publicada em 2026 reforça precisamente esse conceito: a exposição prolongada e persistente às partículas aterogênicas acelera a aterosclerose, e a exposição acumulada ao colesterol aterogênico durante a juventude influencia o desenvolvimento de doença cardiovascular décadas depois.
Imagine duas pessoas. Uma chega aos 50 anos com LDL elevado há dois anos. Outra chega aos mesmos 50 anos depois de permanecer com LDL elevado desde os 25.
O exame realizado naquele dia pode mostrar números semelhantes. A história arterial não é semelhante. A segunda pessoa acumulou décadas de exposição. O corpo guarda a memória daquilo a que foi submetido repetidamente.
E é justamente aqui que entra uma das palavras mais importantes da prevenção moderna: Rotina.
A aterosclerose também tem uma rotina, a placa de aterosclerose não aparece de uma hora para outra. Ela se desenvolve progressivamente dentro da parede arterial, influenciada pela entrada e retenção de partículas contendo apolipoproteína B, inflamação, pressão arterial, tabagismo, metabolismo da glicose, genética e diversos outros fatores.
Em determinado momento, uma placa vulnerável pode sofrer ruptura ou erosão. O organismo forma um trombo naquele local e o fluxo de sangue para parte do coração pode ser abruptamente interrompido.
Esse é o momento que chamamos de infarto. Mas perceba: o trombo pode ter se formado naquele dia. A vulnerabilidade arterial, não. Por isso, tratar apenas o momento agudo é necessário e salva vidas , mas prevenir significa atuar muito antes.
“Eu treino. Então estou protegido. “Esse é outro equívoco comum, especialmente entre pessoas jovens. Exercício físico é uma das ferramentas mais poderosas da prevenção cardiovascular. Mas nenhuma corrida, musculação ou treino intenso concede imunidade contra hipertensão, colesterol elevado, diabetes, predisposição genética ou tabagismo.
É perfeitamente possível ter boa aparência física, baixa gordura corporal e ótimo desempenho esportivo e, ainda assim, possuir fatores silenciosos de risco. Estética não é exame cardiovascular. Performance não é sinônimo de ausência de aterosclerose.
O mesmo vale para pessoas magras. O mesmo vale para quem nunca sentiu dor no peito. E o mesmo vale para quem “sempre teve exames normais”, quando esses exames se resumiam a uma avaliação superficial.
Prevenção moderna é muito mais do que perguntar se a pessoa sente alguma coisa.
Os novos sinais de atenção: LDL não conta toda a história .O colesterol LDL continua sendo um dos pilares da avaliação cardiovascular. Mas hoje conseguimos enxergar além dele.
A apolipoproteína B (ApoB) representa o número de partículas aterogênicas circulantes e pode acrescentar informação principalmente quando há diabetes, triglicerídeos elevados ou discordância entre os marcadores tradicionais.
A lipoproteína(a), ou Lp(a é outro exemplo importante. Ela é predominantemente determinada geneticamente e níveis elevados aumentam o risco de doença aterosclerótica. A diretriz ACC/AHA de 2026 passou a recomendar a sua dosagem pelo menos uma vez na vida adulta para identificar pessoas cujo risco poderia passar despercebido em uma avaliação convencional. Isso é particularmente importante quando existe histórico familiar de infarto precoce.
Quando alguém me diz: “Meu pai infartou com 48 anos”, eu não escuto apenas uma história familiar. Eu escuto um possível sinal de risco. A genética carrega a arma. A rotina pode influenciar quando e se o gatilho será puxado.
Essa frase precisa ser interpretada com cuidado. Há pessoas geneticamente predispostas à doença cardiovascular. Hipercolesterolemia familiar e Lp (a) elevada são exemplos claros.
Ninguém escolhe os genes que recebeu. Mas conhecer uma predisposição permite agir mais cedo sobre tudo aquilo que pode ser modificado. É exatamente por isso que prevenção não significa prometer risco zero. Significa reduzir exposição, identificar vulnerabilidade e mudar probabilidades.
E quanto mais cedo fazemos isso, maior costuma ser a oportunidade de benefício ao longo da vida. O jovem que infarta pode perder décadas de vida saudável
Existe ainda outro aspecto pouco discutido. Quando uma pessoa sofre um infarto aos 75 anos, enfrentamos uma doença grave. Quando sofre aos 38 ou 42, enfrentamos a mesma gravidade acrescida de décadas futuras convivendo com doença coronariana estabelecida.
No registro YOUNG-MI, pacientes que tiveram infarto com 40 anos ou menos apresentaram, no acompanhamento prolongado, mortalidade de longo prazo comparável à de pacientes que tiveram o evento entre 40 e 50 anos. Ou seja: ser muito jovem no momento do infarto não torna suas consequências irrelevantes.
O primeiro infarto muda o diagnóstico. A partir daquele momento, não estamos mais falando apenas em prevenção de doença. Estamos falando em prevenir o próximo evento.
E onde entra a rotina? Em praticamente tudo.
A American Heart Association organiza a saúde cardiovascular em oito pilares : alimentação, atividade física, exposição à nicotina, sono, peso corporal, colesterol, glicemia e pressão arterial. Melhor desempenho nesses indicadores está associado a melhor saúde cardiovascular ao longo da vida.
Observe que quase nenhum deles depende de uma decisão tomada uma vez por ano.
Dependem daquilo que fazemos repetidamente. É aí que prevenção deixa de ser um conceito abstrato e entra na vida real.
É a pressão que você mede e controla, é o cigarro que não fuma, é o vape que abandona.
É o colesterol que não permanece vinte anos sem tratamento quando existe indicação para tratá-lo. É a atividade física que entra na agenda, é a musculatura que você preserva, é o excesso de gordura visceral que reduz. É a glicemia que acompanha, é o sono que respeita. É a alimentação que repete na maior parte da semana e não a refeição perfeita de domingo. É a consulta que você não deixa para depois porque “ainda é jovem”.
A prevenção cardiovascular é, em grande parte, o resultado de pequenas decisões repetidas por tempo suficiente.
O perigo de esperar sintomas: A aterosclerose costuma ser silenciosa. Esse é um dos motivos pelos quais esperar dor no peito para investigar o coração é uma estratégia ruim.
A ausência de sintomas significa apenas ausência de sintomas. Não significa necessariamente ausência de doença.
A medicina de prevenção procura identificar fatores de risco e, em indivíduos selecionados, sinais de aterosclerose subclínica antes do primeiro evento. Isso não significa que todos devam realizar todos os exames existentes. Significa que uma boa avaliação deve ser individualizada.
Idade, pressão arterial, perfil lipídico, glicemia, composição corporal, tabagismo, história familiar, doenças inflamatórias, hábitos de vida e outros marcadores ajudam a definir quem precisa investigar mais.
Em adultos selecionados, métodos como o escore de cálcio coronariano podem refinar a avaliação de risco. A diretriz de 2026 destaca seu papel em determinados homens a partir dos 40 anos e mulheres a partir dos 45 anos, dentro de uma decisão clínica individualizada.
O objetivo não é transformar pessoas saudáveis em pacientes. É exatamente o contrário. É tentar manter pessoas saudáveis saudáveis.
Se eu pudesse deixar apenas 5 mensagens
1. Juventude não é fator de proteção absoluta. Infartos em jovens existem e merecem atenção.
2. O risco cardiovascular é cumulativo. Anos de exposição a pressão alta, colesterol aterogênico, tabagismo, diabetes e obesidade importam.
3. Aparência saudável não substitui avaliação. Você pode treinar, ser magro e ainda carregar risco silencioso.
4. História familiar deve ser levada a sério. Infarto precoce na família pode mudar a estratégia de investigação.
5. A rotina pode mudar a história natural da doença. Não podemos trocar nossos genes. Mas podemos modificar grande parte do ambiente em que eles se expressam.
A pergunta que eu gostaria que você fizesse hoje Não é: “Eu vou infartar?”Nenhum médico sério pode responder essa pergunta com certeza.
A pergunta mais inteligente é: Que história cardiovascular eu estou construindo todos os dias?” Porque o coração não enxerga promessas para janeiro.Ele responde à pressão de hoje ao cigarro de hoje , ao colesterol acumulado. ,a glicose repetidamente elevada.
Ao exercício que acontece ou não acontece.Ao sono de todas as noites.
Àquilo que chamamos simplesmente de rotina.
Depois de mais de duas décadas acompanhando pacientes cardiológicos, uma convicção ficou cada vez mais forte para mim: A melhor cardiologia não começa na sala de hemodinâmica. Ela começa muitos anos antes de o paciente precisar chegar até ela.
O grande avanço da cardiologia moderna não é apenas sermos capazes de tratar melhor um infarto.É conseguirmos reconhecer cada vez mais cedo quem está caminhando em direção a ele.E mudar essa trajetória enquanto ainda existe tempo.
Porque o infarto pode acontecer em um dia. Mas a história que levou até ele vinha sendo escrita há anos.E, em muitos casos, é justamente na Rotina que temos a oportunidade de escrever um final diferente.
Max Wagner de Lima é cardiologista

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

























