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ARTIGO

Intergeracionalidade e o pé de abacate

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Minha tia, com quase noventa anos, me mostra uma muda de abacate e me conta que aprendeu a fazer enxerto em um curso livre on line de agronomia em que ela se inscreveu. Se você sabe o que é enxerto, nesse caso, você já vislumbra uma muda ‘atada’ a outra; um broto que é, minunciosamente, inserido em um pé já crescido e do qual tira ‘substratos’ para se fortalecer.

Esse episódio curioso, por vários aspectos – inclusive por aprender o que seria o enxerto e a importância dele para o broto – , me fez pensar em uma palavra cuja sonoridade, formação e significado muito me agradam: intergeracionalidade.

Intergeracionalidade diz respeito ao ‘diálogo’ entre pessoas de diferentes gerações. São trocas, interfaces, interações genuínas e interessadas entre pessoas que se distinguem, nesse caso, por pertencer a grupos etários semelhantes em uma determinada época. Esses grupos se caracterizam por laços culturais e sociais que os unem em crenças, ideias e compartilhamento de artefatos, que manifestam formas de ver, sentir e se expressar, cocriados em um determinado contexto temporal.

Diferentes gerações em um “tempo de árvore”, tal como descreve Roman Krznaric, em seu livro, Como ser um bom ancestral. Como uma árvore genealógica, cujos galhos representam ramificações de um grupo originário de uma família e seus descendentes.

Estamos lidando com a ancestralidade, que nada mais é do que um contínuo passado-presente-futuro da humanidade. Uma ancestralidade que é de todos nós; uma linhagem de antepassados recentes e distantes no tempo e no espaço, cujos laços se constituem pelas combinações genéticas que nos precederam e aquelas que vêm em seguida. Uma descendência que será um dia também predecessora de outras.

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E o que isso tem a ver com o aprendizado do enxerto no pé de abacate? Justamente pela ocasião de interseção que aqui nomeamos intergeracionalidade. Ou seja, a oportunidade mágica de intercambiar percepções sobre a existência e o quão rica é a troca de ‘insumos’ na convivência entre diferentes gerações, se consideramos as diversas vivências que vamos colecionando nos encontros vida afora.

Nunca é “passar o bastão”; e esse é, a meu ver, o primeiro ponto ao se tratar de intergeracionalidade. Um idoso, por exemplo, não vai empacotar seus saberes amadurecidos em longa data e transferi-los simplesmente a seus sucessores. Os saberes, para que conquistem seu devido valor, se movimentam, se contrapõem, se negociam. O saber é circular, e é preciso tanto receber quanto oferecer, tanto acolher como doar. Permanentemente aprendemos e continuamente ensinamos algo.

Ainda que a expressividade cultural de grupos que partilham uma mesma faixa etária influencie no coletivo, as histórias são de cada um. As narrativas são também subjetivas e se entrelaçam em uma mesma contemporaneidade ou em tempos e espaços distintos. Isso dá o tom positivo do fenômeno da intergeracionalidade. Aprender com os mais velhos e aprender com os mais novos a ver o mundo com olhos de transcendência: o que não é nada fácil, mas certamente fascinante. Seja na família, na escola e no trabalho.

Neste último, me lembro de uma situação que me chamou muita a atenção: fui convidada, há um bom tempo atrás, a participar de um evento de três dias de treinamento e desenvolvimento em uma multinacional. Um dos propósitos apresentados foi a importância da ‘miscigenação’ de saberes nas práticas organizacionais, ou seja, a relevância que foi acentuada ali sobre os ganhos de uma ação em consonância entre gerações distintas em um mesmo ambiente de trabalho.

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E concordei com isso. Na família, conhecemos os percalços e as alegrias que existem no embate de opiniões divergentes entre as diferentes gerações, nos valores, no modo de conceber a vida. Intergeracionalidade demanda escuta ativa, empatia e negociação de pontos de vista. Isso é alimento para a árvore da vida, que se expande a cada experiência dividida.

Na escola, sobretudo, a intergeracionalidade pode ser potencializada e ensinada como valiosa, seja entre alunos de diferentes segmentos atuando em um mesmo projeto acadêmico, seja na interação professores e alunos, seja na participação de toda a família na comunidade escolar. Aprendi sobre a recorrência dessa prática educativa nas escolas finlandesas, em uma ocasião de trocas pedagógicas em que tive o privilégio de estar.

Algo simples na imensa complexidade do existir, a intergeracionalidade está aí para ser degustada: seja na forma simbólica de um enxerto em um pé de abacate, seja nos encontros que a vida nos permite compartilhar, quando, cuidadosamente estabelecida, essa ‘aderência’ se alimenta de seiva mútua e afetiva.

Ana Rosa Vidigal é professora, psicopedagoga e jornalista. Doutora em Língua Portuguesa pela PUC Minas e Université Grenoble III, França. Atua na formação de professores da Educação Básica e do Ensino Superior, e de gestores, líderes e equipes, ministrando palestras e cursos nos domínios da Educação, da Comunicação e do Socioemocional, suas interfaces nas relações humanas e na construção do vínculo. Contato: @saberescirculares (Instagram) e [email protected] (email)

Ana Rosa Vidigal
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