
A ex-diretora da Santa Casa de Rondonópolis, Bianca Thalita Santos Franco, revelou em depoimento nesta terça-feira (15.04) na Comissão Especial de Investigação (CEI) da Câmara de Rondonópolis uma série de suspeitas em contratos da instituição, além de uso político por integrantes da irmandade e a forte influência de Tânia Balbinotti, esposa de Odilio Balbinotti, produtor rural com atuação no município.
Atualmente, a Santa Casa tem dívidas que somam R$ 70 milhões e enfrenta uma série de disputas com o Conselho Regional de Medicina (CRM). Bianca, que ficou conhecida no município após declarar que existe uma “máfia de médicos”, fez duras críticas aos “sócios” da irmandade que controla a Santa Casa.
De acordo com Bianca, o estatuto da irmandade foi alterado antes de Tânia se candidatar à presidência da Santa Casa de Rondonópolis. Bianca falou sobre Tânia quando foi questionada se havia prioridade para pagar fornecedores daquela unidade de saúde.
“Quando eu entrei nós tínhamos um tipo de estatuto onde o presidente e os diretores voluntários respondiam pelas ações da Santa Casa, quando o Movimento SOS – que era liderado pela senhora Tânia Balbinotti, ela entrou na irmandade e fez a chapa para assumir. O estatuto foi mudado antes dela entrar, para ela entrar o estatuto foi alterado”, relatou Bianca.

Bianca Franco foi questionada se o estatuto foi mudado para atender aos interesses de Tânia, mas a testemunha evitou a pergunta. Segundo Bianca, “alguns direcionamentos” foram dados depois que Tânia assumiu a Santa Casa.
“Houve uma divisão depois desse movimento, de pessoas de dentro do SOS que perceberam que ficou político, que ficou politizado”, contou. “A senhora Tânia assumiu a presidência da Santa Casa e a partir deste momento ela participava como presidente, como conselheira, participava contratando pessoas, fazendo também as suas entrevistas dentro da sua empresa, da Atto Sementes, que não era feito dentro da Santa Casa, e alguns direcionamentos foram dados sim depois que ela entrou na gestão”.
Atualmente, Tânia é secretária de Saúde de Rondonópolis. O atual prefeito, Cláudio Ferreira (PL), recebeu R$ 540 mil de doação eleitoral do marido de Tânia.
A testemunha foi questionada se a instituição foi utilizada como palanque político. Segundo a ex-diretora, isso ocorreu diversas vezes, por meio de vídeos publicados por um membro da Santa Casa.
“Infelizmente sim. Algumas pessoas foram beneficiadas e outras não”, declarou. “Eu me lembro aqui, agora, de um deputado que me pediu uma campanha e a gente não pôde fazer por ele. E outro deputado pediu uma campanha e a gente atendeu. E isso começou a me deixar bem frustrada e revoltada na época”, declarou.
Contrato de R$ 1,8 milhão
A ex-diretora também comentou sobre um contrato firmado pela Secretaria de Saúde para aluguel de um prédio da Santa Casa de Rondonópolis.
Segundo Bianca, ainda na gestão do ex-prefeito José Carlos do Pátio (Solidariedade) foram iniciadas tratativas para aluguel do prédio, mas a ideia foi rejeitada pelo então prefeito. Segundo ela, esse contrato de aluguel foi firmado na gestão atual, da secretária Tânia Balbinotti. O proprietário do imóvel é sócio da irmandade que mantém a Santa Casa e teria feito campanha para Cláudio Ferreira.
“O que houve são trocas de favores reais, a exemplo de um contrato de R$ 1,8 milhão que foi firmado com a Secretaria para aluguel da Unic, um prédio muito antigo, muito depredado, que está muito falado. Começou na época do prefeito Zé do Pátio, não foi fechado naquele período, porém foi fechado agora, um contrato de R$ 1,8 milhão de um prédio para locação, lá onde será a Secretaria de Saúde e onde será a Secretaria de Assistência Social e ele é sócio”, afirmou Bianca.
De acordo com a ex-diretora, a irmandade que mantém a Santa Casa possui 148 integrantes e, deste total, existem cerca de 40 integrantes que utilizam a instituição com objetivos políticos.
O que diz a Santa Casa
Segundo o diretor de comunicação da Santa Casa, Gino Rondon, a instituição vai se manifestar apenas quando for solicitada pela CEI da Câmara.
“O que ela falou ela tem que provar o que ela disse. A Câmara é que tem que tomar as providências”, declarou Gino. “Não estamos manifestando nenhuma posicionamento em relação à máfia dos médicos que ela cita teria que ver com os médicos. Em relação às suspeitas de superfaturamento de serviços, se a Câmara pedir documentos, a Santa Casa vai fornecer”, comentou Gino.
Rondon afirmou que a atual direção está focada em resolver a situação da Santa Casa perante o atraso no pagamento dos salários dos médicos.
O que diz Tânia Balbinotti
A reportagem entrou em contato com Tânia Balbinotti para esclarecer sobre suposto uso político do hospital citado no depoimento, mas não obtivemos resposta até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.
O que diz a Prefeitura de Rondonópolis
Por meio de nota, a Prefeitura de Rondonópolis informou que o contrato citado pela ex-diretora ainda não foi assinado. Segundo a prefeitura, o processo está sendo movido por inexigibilidade de licitação e o prédio vai abrigar três secretarias, resultando em um aluguel de R$ 12 mil para cada secretaria.
Nota da Prefeitura Municipal de Rondonópolis/MT
A Prefeitura Municipal de Rondonópolis/MT, em atenção às declarações da Ex-Diretora da Santa Casa de Rondonópolis, prestadas durante a 1ª Sessão de Oitivas da Comissão Especial de Inquérito (CEI), realizada na Câmara Municipal de Rondonópolis/MT, no dia 14/04/2025, vem esclarecer que o contrato mencionado refere-se, na verdade, a uma expectativa de contratualização ainda não efetivada.
Cabe destacar que a locação do imóvel foi amplamente discutida pela Câmara Municipal de Rondonópolis/MT e aprovada em sessão de votação realizada em julho de 2024, resultando na sanção da Lei Municipal nº 13.763, de 18 de julho de 2024, que autorizava sua locação para a instalação da EMEB Professora Renilda Silva Moraes. No entanto, a atual gestão decidiu readequar o uso do imóvel para abrigar as três secretarias, considerando sua estrutura adequada, acessibilidade e viabilidade de uso integrado.
Essa decisão busca promover maior eficiência administrativa, otimização dos recursos públicos e melhor atendimento à população, com respaldo na vantajosidade da contratação, conforme valor fixado por avaliação técnica da Comissão de Avaliação de Bens Imóveis (Portaria nº 34.453/2024), realizada em 06/06/2024.
O processo em andamento trata da locação do imóvel situado na Rua Floriano Peixoto (antiga UNIC), pelo período de 48 meses, com valor mensal de R$ 38.552,14. O objetivo é instalar, de forma conjunta, as Secretarias Municipais de Educação, Cultura, Esporte e Lazer, Promoção e Assistência Social, e Saúde.
O valor do aluguel dividido entre as 3 pastas, resulta no valor mensal de R$ 12.850,71 para cada secretaria.
A contratação está sendo realizada com fundamento no art. 74, inciso V, §50 da Lei nº 14.133/2021, por inexigibilidade de licitação (Processo nº 16/2025), podendo ser firmada com a empresa Estimac Administradora e Incorporadora de Imóveis LTDA (CNPJ nº 10.279.385/0001-21).
Por fim, a Prefeitura reafirma seu compromisso com uma gestão pública eficiente, transparente e pautada nos princípios constitucionais que regem a Administração Pública.






















