O ex-governador Carlos Bezerra, eterno cacique do MDB, costumava dizer quando estava na ativa que, na política, “os projetinhos seguem o projeto maior”. A direita que se diz democrática tem seus projetinhos eleitorais para 2026, agarrados, ao que parece, no projeto maior da extrema direita de anistiar Bolsonaro e torná-lo candidato a presidente. A direita manda às favas as graves denúncias da tentativa de golpe, com os ingredientes de planos de assassinato do presidente Lula, do vice Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes. O silêncio conivente e cúmplice de lideranças de direita revela que a defesa da democracia não é prioridade para essa gente, só seus projetinhos pessoais e exclusivamente partidários.
A verdade é que para a direita oportunista, e, claro, para a extrema direita, a tentativa de golpe também foi reduzida cinicamente à polarização. Assim, criticar Bolsonaro e os militares pela tentativa de golpe seria defender não a democracia, mas defender o PT, defender a esquerda. Matar o presidente, matar o vice, matar um ministro do STF e matar a democracia seriam ações “normais” da polarização no Brasil, parte das quatro linhas do jogo extremista. Para bolsonaristas e direitistas cúmplices, o golpe portanto seria “constitucional”, naturalizado pela polarização do nós x eles, da insânia receita da “ditadura como remédio para curar o comunismo”.
A lógica egoísta colocada em prática no país por Jair Bolsonaro diz que no Brasil o que vale é cada um por si, daí o nojo que sentem pela democracia. A democracia é um projeto de vida coletiva, implica em ter uma visão de cooperação entre todos e de diálogo também com os contrários. A extrema direita prega o extermínio dos adversários, prega a verdade única. Nada disso comove a direita que se diz democrática, ainda estão apenas preocupados em não virar alvo dos radicais nas redes e do que podem ganhar eleitoralmente ainda agarrados ao projeto político do bolsonarismo.
O país não consegue enfrentar de forma competente, com a coragem necessária, o mito da superioridade moral dos militares. O envolvimento de militares golpistas, a complacência com os acampamentos montados nas portas dos quartéis, e a normalização do fator baioneta na vida civil são indícios de que o país continuará vivendo sob risco, apequenado e sujeito às recorrências do mito do militarismo. Viver a vida frágil da democracia é não impor a força civil, preferindo conferir a Bet da aposta nacional do confronto no jogo do Normal x Exceção. Viver a vida perigosamente é um dia acordar com um déficit de generais legalistas, e o golpe será fato consumado. Isso nunca foi problema para a direita brasileira que se diz democrática mas que ama uma ditadura.
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