Qualquer assunto tem se tornado motivo para estrepitosa polêmica. Grande parte não passa de falsa polêmica. As polêmicas mais ruidosas, mesmo que falsas, são as oriundas do comportamento condicionado imposto pelo pensamento hegemônico vigente na tal pós-modernidade: é permitido ser ou pensar qualquer coisa, desde que seja a coisa “certa”.
Esse oblíquo conceito de “certo” é determinado por grupos de pressão que dominam as instituições de ensino superior, os meios de comunicação e o aparato burocrático estatal.
Ou seja, a regra é que se deve sempre questionar, desde que as questões deduzidas atendam aos limites previamente estabelecidos no script doutrinário vigente.
Paulo Francis disse uma vez que “o Brasil é um asilo de lunáticos onde os pacientes assumiram o controle”, uma frase provocativa, como era da índole do jornalista, e que ao analisarmos os últimos quinze anos do espectro político-partidário faz muito sentido.
Todavia, não é apenas neste sentido que devemos nos deixar provocar por Francis, pois há ainda outra verdade embutida naquela máxima que a faz ser ainda mais certeira: cada vez mais afirmar o “óbvio ululante” (na precisa definição de Nelson Rodrigues) – óbvio este que não está conforme a cartilha ditada pelos donos do poder – faz com que as hostes do pensamento hegemônico iniciem o ranger de dentes, as detrações as perseguições; em seguida incitam a massa de arregimentados (massa deveras desinformada e alienada por anos de doutrinação) a replicar o que discurso-padrão sem nem mesmo questionar se aquilo que sustentam faz algum sentido.
Sem dúvida uma das maiores [falsas] polêmicas hodiernas é afirmar o tal óbvio ululante quanto a um tema perene na humanidade há bons séculos: o Estado existe para servir aos cidadãos, e não para servir-se deles.
Basta dizer que o Estado deve servir e não servir-se e uma aparente “expressão-gatilho”, de forma autômata, despertasse em algumas – muitas – pessoas um Mr. Hyde (o “monstro” do famoso livro de R.L. Stevenson, “O Médico e o Monstro”).
A partir dessa transmutação não há mais lógica para o transformado, mas sim um comportamento que beira o compulsivo e faz com que as pessoas neguem seus próprios princípios a olhos nus, sem se darem conta disso.
Aí é inútil tentar terminar a conversa acerca da hipertrofia do aparato público, pois o Monstro já mandou às favas a verdade e atua agora pela regra tupiniquim “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
Porém, por mais figadal que seja a reação às afirmações de que o Estado perdeu-se na busca de mais poder, não adianta!, a verdade continua lá e com cruel franqueza Flannery O’Connor sentenciou o que hoje parece inconveniente relembrar: “a verdade não muda conforme nossa capacidade de digeri-la”.
Ora, é certo que todos pagam impostos (para bancar o Estado), inclusive aqueles que compõem o aparato burocrático estatal.
Mas ainda é certo que o principal papel do Estado deve ser o de não sobrecarregar a vida dos cidadãos criando regras, imposições e custos inúteis em um sistema que auto-alimenta: quanto mais regras criadas, maior deve ser o aparato estatal para acompanhar e fiscalizar sua aplicação, logo, maiores devem ser os quadros de pessoal para tal desiderato, logo, maior será o grupo de pressão interessado em que o Estado aumente ainda mais sua atuação com criação de regras em uma sede infinita de poder e que grupos privilegiados exijam o que chamam de “direitos”, ignorando conscientemente (ou em auto-engano) que seu “direito” se torna um dever e uma obrigação imposta a todos os demais.
Quem diz verdades perde amizades, alertou-nos Santo Tomás de Aquino. Vou além, quem diz verdades ganha inimizades, mas não importa: passou da hora de reduzirmos o tamanho do Estado, ou estaremos todos fadados à completa ruína, inclusive aqueles que hoje acham intimamente que se beneficiam da situação.
Fernando Henrique Leitão é advogado e membro do Instituto Caminho da Liberdade em Mato Grosso (ICLMT).























