Nas redes sociais circulou uma enquete recente, feita numa feira agropecuária em Campo Grande (MS), com a seguinte pergunta: qual situação um sul-mato-grossense odeia? As respostas que lideraram foram dadas por jovens e adultos e seguiram uma linha complicada de entender.
“Chamar a gente de Mato Grosso, né?”. “É confundir Mato Grosso do Sul com Mato Grosso”. “O pior é nos confundir com Mato Grosso”. “É falar Mato Grosso e esquecer que é Mato Grosso do Sul”. “Você vai ver daqui a pouco, na hora do show, o cara vai falar boa noite, Mato Grosso! e o pessoal vai gritar … do Sulll”.
Os sinônimos de ódio (era sobre isso a pergunta, afinal!) indicam aversão, repulsa, abominação e também detestar algo, ou alguma coisa. No caso dos nossos vizinhos que se manifestaram na enquete, ao menos a maior parte deles, sugeriram sentimentos de inimizade, mencionados em contextos de rejeição.
Eu me pergunto quais seriam as causas para tal animosidade ainda estar presente nos tempos atuais. Sabe-se que os sul-mato-grossenses, defensores do movimento separatista do então Mato Grosso uno, sagraram-se vitoriosos em outubro de 1977, com a lei da divisão do estado remanescente para a criação de Mato Grosso do Sul.
Ano que vem, portanto, MS caminha para 50 anos. Nesse tempo, nós aqui, em MT, acompanhamos a consolidação da unidade formada com uma boa fatia de nosso território. Vamos lá que, do lado original, sobrou uma pitada de rivalidade, mas isso se tornou compreensível diante de quem perdeu/doou seu ambiente para formação do novo estado.
De todo modo, para entender porque ainda prevalece a aversão que parcela dos irmãos do sul tem em relação a MT, revisitei pesquisa sobre o assunto que fiz no meu curso de Mestrado em Ciências da Comunicação na ECA/USP. À época, anotei que o movimento separatista de MT começou em fins do século XIX.
Uma das causas seria o fato de se carrear recursos somente para a capital Cuiabá, uma herança do período colonial. Mais para frente, em 1930, no governo provisório de Getúlio Vargas, o sul buscou mudar a capital para Campo Grande, mas não vingou. Em 1932, na Revolução Constitucionalista, outro movimento divisionista também não logrou êxito.
À Constituinte Federal de 1934, a Liga Sul-mato-grossense, fundada por estudantes, pleiteou a divisão, sem sucesso. Mais tentativas ocorreram em 1943, com a criação dos Territórios Federais, e, em 1959, com a perspectiva de Jânio Quadros chegar à Presidência da República. A campanha da época – “Dividir para Multiplicar” – tinha, como logomarca, uma tesoura cortando MT ao meio.
Porém, se esvaziou quando o campo-grandense Jânio, ao assumir a PR, em 1960, teria declarado: “essa tesoura corta o meu coração”. Só em 1975, o tema divisão voltou à tona, por causa do governo militar que sinalizou uma redivisão territorial no país. O que foi, enfim, no caso de MT, concretizado com a Lei Complementar nº 31, assinada por Geisel.
Com a instalação de MS, em 1979, MT ficou com 901.420,7 km², 38 municípios e uma população estimada de 850 mil habitantes. Ao MS coube 357.145 km² de terras, 55 municípios e 1,4 milhão de habitantes. Penso ser dispensável relacionar o que aconteceu com MT pós-quase 50 anos de sua divisão.
Mas, rapidamente, pode-se realçar que MT registra atualmente cerca de 4 milhões de habitantes, é composto agora por 142 municípios, e tornou-se o maior produtor agrícola do Brasil em 2026. Sozinho, representa entre 17% a 21% de toda a riqueza produzida no segmento agropecuário do país.
Sábado (9), MT festejou seu aniversário de 278 anos. Cuiabá, sua eterna capital, comemorou, este ano, 307 anos de fundação. Ambos carregam histórias, lutas e conquistas que orgulham seus filhos, nativos ou não. As mazelas, os fracassos, inclusive, coexistem por aqui, é claro, porém são inerentes ao crescimento econômico e social de uma região.
Nesse tempo de estado uno ou dividido (a primeira separação, em 1943, originou Rondônia), nada apagou a mais importante característica de seu povo, que é o calor humano. Também não fez desaparecer sua potência cultural, marcada por uma miscigenação indígena, africana, ibérica e de migrantes de outras regiões do país; seus usos e costumes e o genuíno linguajar cuiabano.
Mato-grossenses se distinguem nas danças tradicionais (Siriri e Cururu integram o Patrimônio Cultural do Brasil), nos ritmos (rasqueado e lambadão), na gastronomia (pacu assado, mojica de pintado e Maria Izabel), nas festas de santo, artesanato, artes plásticas, literatura, cinema, além de futebol e moda, entre outras manifestações populares e culturais.
Quanto ao meio ambiente, MT é privilegiado em termos de biodiversidade. Sozinho, reúne três dos principais biomas do país – Amazônia, Cerrado e Pantanal. O principal rio do Pantanal é o Rio Paraguai, que nasce aqui, na região da Chapada dos Parecis. Também corre para o Pantanal o rio Cuiabá, que nasce em Rosário Oeste, a cerca de 120 km da capital.
No meu entendimento, no cenário atual, está na hora de parte dos vizinhos relativizar essa antipatia. Mesmo porque aquela máxima que surgiu logo em seguida à divisão – a de que o patinho feio, no caso MT, havia se transformado em um cisne –, de fato, prosperou.
O que honra os mato-grossenses e deveria envaidecer também os sul-mato-grossenses, acabando de vez com esse viés de desapreço que eles têm em relação às suas origens.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online
Artigo publicado originalmente no Eh Fonte
























