O filme “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles, tem sido alvo de intensos debates nas redes sociais, evidenciando mais uma vez a polarização entre direita e esquerda no Brasil. A produção, que retrata a brutalidade da ditadura militar e narra a história de Eunice Paiva na busca pela verdade sobre a morte de seu marido, tornou-se um dos principais alvos de boicote por parte de perfis alinhados à direita, enquanto foi amplamente defendido por setores progressistas.
Esta é a primeira de uma série de reportagens produzidas pelo PNB Online e que serão publicadas ao longo da semana sobre Política, a ditadura militar e o Oscar 2025.
A polêmica nas redes sociais sobre o filme começou desde antes da estreia nos cinemas, em novembro passado, quando perfis conservadores no X (antigo Twitter) passaram a pregar um boicote ao filme. Os bolsonaristas de extrema-direita tentaram lançar mentiras sobre a história de Eunice Paiva e chegaram a questionar a veracidade dos fatos retratados e até ataques pessoais à protagonista Fernanda Torres, que foi acusada de ter “preconceito contra crentes”.
Um dos elementos usados como munição para esse boicote foi a relação da atriz com o presidente Lula. Uma foto dos dois juntos foi compartilhada com mensagens incentivando os espectadores a evitarem o longa. “Com medo de boicote, Fernanda Torres, eleitora de Lula que já afirmou ter preconceito contra crentes, agora pede paz e diz que seu filme ‘Ainda Estou Aqui’ é para todos… Você vai boicotar o filme?”, escreveu um internauta de direita.
O ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro e atual deputado federal Mario Frias (PL) também entrou na discussão e criticou o filme, chamando-o de “peça de propaganda e desinformação comunista”. Para ele, a cultura brasileira deve estar associada ao “bem e à verdade”, e a obra de Walter Salles seria uma tentativa de “destruir” a cultura nacional com uma “técnica de manipulação psicológica”.
O influenciador digital de direita Peter Jordan, no entanto, se manifestou favoravelmente ao filme. Em uma postagem, ele celebrou a indicação do longa ao Oscar: “O Brasil em peso no Oscar!! Bora levar tudo!!”. A declaração gerou reações mistas entre seus seguidores, com alguns criticando-o por elogiar uma produção que, segundo a extrema direita, “distorce” a história do país.
Apesar da mobilização para o boicote, a produção tem sido um sucesso nas bilheterias nacional e mundial com indicações ao Oscar, no próximo domingo (01.03), em três categorias, além de já ter conquistado 38 premiações.

O embate internacional
A polêmica nas redes sociais em torno do filme atravessou fronteiras e atingiu também a imprensa internacional. O jornal francês Le Monde foi alvo de um volume inusitado de ataques de internautas brasileiros após a publicação de uma crítica negativa do filme. Segundo o correspondente Nicolas Meyerfeld, o periódico precisou apagar cerca de 21.600 comentários ofensivos em apenas dois dias, muito acima da média normal de 700 por dia.
Os ataques envolviam desde críticas ao filme até insultos ao próprio jornal e à cultura francesa, sugerindo uma conspiração contra a produção brasileira para favorecer “Emilia Pérez”, filme francês também indicado ao Oscar.
Batalha política nas redes sociais
A polarização em torno de “Ainda Estou Aqui” reflete a crescente transformação do cinema em um campo de batalha político. O Brasil tem visto cada vez mais obras cinematográficas se tornarem alvos de campanhas de boicote por parte da extrema-direita bolsonarista, repetindo a história de “Marighella”, “Medida Provisória” e outros filmes que abordam temas sociais e históricos sensíveis.
Os ataques ao filme mostram uma estratégia de descredibilização não apenas da produção em si, mas também de uma narrativa histórica que expõe os horrores da ditadura militar. Por outro lado, a mobilização de campos da esquerda e progressistas e o sucesso comercial da obra indicam que, apesar das críticas, o público continua interessado em discutir e revisitar esse período da história brasileira.
* Julia Munhoz é jornalista do PNB Online e professora do curso de Direito da Faculdade Fasipe Cuiabá. Mestre pela UFMT e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Estudos de Cultura Contemporânea (ECCO), da UFMT.





















