
Dados do Censo da Educação Superior 2023, divulgados no último mês pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), mostram que negros ainda são minoria no quadro de professores das instituições de Ensino Superior em Mato Grosso. Conforme o levantamento, apenas 32,7% dos docentes no estado se identificam como pretos, pardos ou indígenas, enquanto 65,4% são brancos.
De acordo com o censo, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), maior instituição pública de ensino superior do estado, a proporção de professores pretos, pardos ou indígenas é ligeiramente maior que a média mato-grossense, chegando a 33,9%, enquanto os brancos correspondem a 63,9% e os amarelos, a 2,2%. As estatísticas levam em consideração professores que estavam em exercício e vinculados às instituições no ano de 2023.
A Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) também tem um quadro de professores não-brancos maior que a média estadual, com 36,4% de pretos, pardos ou indígenas, 61,5% brancos e 2,1% de amarelos. Entretanto, em contrastes mais acentuados, o Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) tem 90,3% de seus docentes identificados como brancos, e a Universidade de Várzea Grande (Univag) tem 75,4% de seus professores nessa mesma categoria.

O PNB Online conversou com a professora universitária Ana Carolina Borges, do curso de História da UFMT. Borges, que pesquisa, entre outros temas, racismo e segregação no Brasil, explica que o ingresso de professores negros em universidades geralmente ocorre por meio de políticas públicas, como as cotas raciais, que muitas vezes são resultado de pressão de movimentos sociais.
“Apesar disso, ainda enfrentamos desafios significativos, como a falta de reconhecimento de nossas produções acadêmicas e a implementação limitada de políticas inclusivas”, afirma. A pesquisadora observa que a obrigatoriedade de ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena, prevista na Lei 11.645, ainda é tratada como secundária em muitas instituições, e se concentra principalmente nas áreas de ciências humanas e educação, quando deveria estar integrada em todas as áreas do conhecimento.
Como forma de reverter um quadro que torna o magistério superior uma realidade distante para pessoas negras no país, Borges afirma que é preciso ir além das cotas de políticas raciais. “Gostaria de ver mais pró-reitores e reitores negros que estejam engajados nesse debate. Ter representantes negros em cargos de gestão não basta; é preciso que esses gestores assumam compromissos concretos com o enfrentamento ao racismo e aos seus desdobramentos, como impactos na saúde mental e na formação dos estudantes”, diz.

A professora destaca ainda que as Universidades deveriam investir em redes de acolhimento para professores, mas também para estudantes que enfrentam racismo, criando espaços para denúncia e apoio. Ana Carolina conta que em uma experiência como gerente de ações afirmativas, recebeu relatos de estudantes quilombolas que sofreram ofensas racistas em sala de aula, como serem comparados a macacos. “Essas situações demandam conselhos ou grupos preparados para oferecer suporte e combater esses comportamentos”.
Como explica a pesquisadora, a pauta negra precisa ser integrada ao calendário acadêmico durante todo o ano. No seu ponto de vista, as instituições devem adotar um diálogo mais profundo com a sociedade civil e movimentos sociais. “Projetos de extensão, exposições e eventos devem ser promovidos de forma contínua, não apenas restritos ao mês de novembro”.























