Não é a primeira vez que o governador Mauro Mendes (União Brasil) faz críticas aos colegas políticos do parlamento, em especial quando a questão é a segurança pública. Outro foco de crítica do chefe do Executivo é o Poder Judiciário, no velho refrão que “a polícia prende, a Justiça solta”. Mauro Mendes só poupa o próprio governo: autocrítica zero, nada sobre as responsabilidades do seu governo quanto à escalada das facções criminosas nas cidades de Mato Grosso. A autocrítica por exemplo que foi feita com coragem pelo vice-governador Otaviano Pivetta (Republicanos) que reconheceu a falta de uma política de segurança pública estadual de resultados.
Passando ao largo de uma avaliação do desempenho do seu governo no contexto do avanço do crime organizado em Mato Grosso, em entrevista à Jovem Pan News, na segunda-feira (29), o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes, defendeu “leis mais duras e inteligentes” para reduzir a criminalidade no país, ao invés de discutir o uso ou não de câmeras nas fardas da Polícia Militar.
Duas coisas diferentes:
1) Faltam leis mais duras e inteligentes é uma crítica ao Poder Legislativo. Quem sabe, por exemplo, se for candidato em 2026, e se eleger senador da República, Mauro Mendes poderá mudar este panorama, propondo as leis duras e inteligentes que faltam hoje por conta da incompetência dos atuais legisladores.
2) A outra coisa é a forma de deixar de lado uma questão importante mas que não interessa ou desagrada ao governador. Neste caso, o governador Mauro Mendes costuma usar expressões próprias do seu glossário político, construído por ele ao longo da carreira pública:
– Rame-rame é, segundo o dicionário maurista, a discussão política estéril, sem resultados. Só os adversários políticos e os jornalistas produzem “rame-rame”;
– Factóide, um termo clássico do glossário de Mauro Mendes. Usa sempre que quer desqualificar uma questão de debate que não lhe interessa ou traz desconforto.
Barrar o uso de câmeras nas fardas dos policiais decididamente é um assunto caro à ideologia bolsonarista, que é defendida com denodo pelo governador. Não interessa às polícias de perfil autoritário e truculento qualquer instrumento de controle de suas ações. Mauro trata a questão como “factóide” na defesa da ideologia da extrema direita bolsonarista.
Faltam leis duras e inteligentes, sim. Faltam mais formas de controle da ação policial, sim também. E falta explicar como as maiores cidades ricas do agronegócio viraram base das facções criminosas e o que falta ao governo fazer para reverter isso. Falta explicar: apesar de todas as ameaças do governador de que os bandidos não teriam boa vida em Mato Grosso, o crime organizado segue forte e operante. Decididamente, os bandidos perderam mesmo, também, o respeito pelo governo.
Em tempo: o uso de câmeras de filmagens nas fardas policiais resultou em uma queda de até 61,2% no uso de força pelos agentes de segurança, incluindo uso de força física, armas letais e não letais, algemas e realização de prisões em ocorrências com a presença de civis.
É o que revelou em 2021 um estudo realizado por pesquisadores das universidades de Warwick, Queen Mary e da London School of Economics, no Reino Unido, e da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), no Brasil, com base em experimento realizado junto à Polícia Militar de Santa Catarina.
Segundo o estudo feito naquele ano, o uso de câmeras resulta também em uma melhora na qualidade dos dados reportados pelos policiais, com maior produção de boletins de ocorrência encaminhados à Polícia Civil.
Em casos de violência doméstica, por exemplo, a frequência de registro aumentou 67,5% durante o experimento, o que sugere que, sem as câmeras, esse tipo de ocorrência muitas vezes deixava de ser reportado ou era registrado sob outras classificações, destacou a matéria da BBC Brasil.





















