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ARTIGO

Bolsonaro réu: para quem vai a marcha fúnebre?

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A marcha fúnebre, originalmente concebida para honrar os mortos, também pode se converter em ferramenta de ironia mordaz, deslocando-se de seu intento solene para escarnecer figuras que, em vida, evocaram polêmicas e divisões.

No Brasil, um país cujas tragédias frequentemente flertam com a farsa, o ex-presidente Jair Bolsonaro tornou-se réu por sua tentativa de minar a democracia e perpetuar-se no poder. Se uma marcha fúnebre fosse entoada agora, não seria para enaltecer um legado, mas para sepultar um projeto autoritário que, não sem esforço, foi contido pelas instituições republicanas.

Se o próprio Bolsonaro evoca a morte para alimentar sua retórica belicista, seria lógico que o simbolismo fúnebre agora o rondasse de maneira irônica. Seu governo pavimentou um caminho de destruição ambiental, ataques à ciência, desmonte de políticas sociais e afrontas constantes ao Estado de Direito. Se houvesse contado com o apoio incondicional das Forças Armadas, como tão desesperadamente buscou, não seríamos nós a entoar uma marcha fúnebre em tom de sarcasmo, mas a prantear a própria democracia brasileira, duramente conquistada após vinte anos de ditadura.

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O Brasil, no entanto, tem uma história peculiar de sobrevida institucional. Golpes foram tentados, tramados em surdina ou à luz do dia, mas nem sempre lograram êxito. Em 2023, a marcha fúnebre que poderia ter sido dedicada ao enterro da democracia acabou, ironicamente, sendo reservada ao projeto golpista de Bolsonaro e seus asseclas. Esse fracasso não redime o país dos riscos futuros (e presentes). Resta-nos, porém, não confiar apenas na música do destino: é preciso vigiar e fortalecer nossa democracia para que o próximo cortejo não tenha no esquife a utopia de um Brasil republicano e livre.

Daniel Carvalho de Paula é doutor em História e professor do curso de Ciências Econômicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM)

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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