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CASERNA EM CRISE

Escolha de coronel na PM de Mato Grosso privilegia conexões políticas 

Policiais têm desistido de concorrer ao posto de coronel ao constatarem que angariar apoio político é mais importante do que demonstrar serviço prestado.

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A escolha de cinco novos coronéis da Polícia Militar de Mato Grosso em 2026, que deve ser feita ainda esta semana pelo governador Otaviano Pivetta (Republicanos), que é candidato à reeleição, deve repetir o mesmo cenário visto nos anos anteriores em Mato Grosso: oficiais com perfil operacional são preteridos por aqueles com atuação político-partidária.

Essa é a principal reclamação de fontes ouvidas pela reportagem do PNB Online no meio policial. Sob a farda, o sentimento de insatisfação é quase unânime: policiais desistem de concorrer ao posto de coronel ao constatarem que angariar apoio político é mais importante do que demonstrar trabalho prestado.

Neste ano, Pivetta terá de escolher cinco dos 15 oficiais da lista enviada pelo comando da Polícia Militar de Mato Grosso. Em teoria, o processo é rigoroso, técnico e até matemático. Na prática, porém, vence aquele que mais próximo estiver do mais alto escalão do poder político.

Em uma análise crua, a disputa parece ser objetiva e técnica. Prova disso é que os concorrentes precisam obter pontuação de três maneiras diferentes: através da avaliação de seu comandante superior, um coronel; através da ficha funcional em que contam pontos os feitos na carreira como tempo de comando na unidade, a qualificação profissional e o tempo de exercício da função; e por último, a nota de maior peso, dada pela Comissão de Promoção de Oficiais (CPO), um grupo do alto escalão formado pelo comandante da PM, que atualmente é o coronel Claudio Fernando Carneiro Tinoco, e outros quatro coronéis.

A primeira etapa é simples: obter nota positiva do próprio comandante é uma tarefa menos complexa para quem galgou o posto de tenente-coronel. A segunda, idem: com alguns anos de qualificação e dedicação o militar consegue garantir uma ficha funcional respeitável.

O problema, porém, está na última etapa, o CPO. Oficiais ouvidos pela reportagem do PNB Online relatam falta de critérios objetivos, de transparência e de coerência nas avaliações do CPO. É nesse ambiente que a metodologia objetiva da promoção vai por água abaixo. Em muitos casos, militares com pontuação ótima ou boa nos outros critérios sofrem derrotadas acachapantes no CPO e veem o sonho de receber a patente de coronel ser destruído.

“O CPO funciona, na verdade, para que os nomes preferidos do governador ou de aliados do governador sejam alavancados para a disputa”, diz um militar ouvido pelo PNB sob a condição de anonimato.

Nesse jogo de preferências políticas, os preteridos não escondem a indignação. A maioria deles, com perfil operacional, acabam sendo rejeitados na estrutura hierárquica da PM em detrimento dos militares com mais e maiores conexões políticas. Outros simplesmente desistem de concorrer ao posto.

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A tenente-coronel Athayses Assunção, comandante do 24º Batalhão da PMMT, foi uma das que resolveu falar. Conhecida por um currículo invejável, que inclui passagem pelo Gaeco, Assunção não usou meias palavras para criticar a forma como a PM conduz suas promoções.

“Mais um reflexo da cultura de supressão e soterramento de carreiras de oficiais femininas, operacionais, reconhecidamente notáveis e brilhantes. Hoje sou eu e Fleck, ontem Susane, em outrora Hadassah, entre outras que desistiram do processo”, declarou em uma publicação no Instagram.

O texto fez referência a outras três mulheres que foram preteridas nesta e em outras disputas. Hadassah Suzannah Beserra de Souza, atualmente secretária da Mulher na gestão de Abilio Brunini (PL) na Prefeitura de Cuiabá, que atuou muito tempo na área operacional, mas acabou preterida em outros certames pelo posto de coronel.

A tenente-coronel Valéria Fleck, comandante da Força Tática em Cuiabá, tem mais de 20 anos de trabalho operacional e também foi preterida. A atual secretária de Segurança Pública do governo Pivetta, Susane Tamanho, também foi preterida em diversas disputas ao posto de coronel, apesar do amplo currículo. Tamanho recebeu a patente somente após entrar na reserva.

Em que pese a maioria dos policiais acreditarem na “meritocracia” como ferramenta de valorização do trabalho militar, ver que na prática não é isso o que ocorre está decepcionando até os mais fiéis ao conceito.

Quem são os favoritos

Neste cenário, acabam se saindo melhor os militares que de alguma maneira estão próximos da política. O nome da tenente-coronel Jussara Novacki, por exemplo, é apontado como favorito dentro da caserna. Irmã de um ex-secretário de Blairo Maggi, Eumar Novacki, e esposa de um aliado histórico de Otaviano Pivetta, o engenheiro Juliano Manzeppi, Jussara tem o nome pavimentado com facilidade na disputa para as cinco vagas. A militar ficou sete anos em Brasília, em atividades interinstitucionais, segundo informou à reportagem.

Quem também desponta como favorito é o tenente-coronel Breno Chaves Nogueira, recentemente nomeado no 4º Batalhão da Polícia Militar em Várzea Grande, causando incômodo em políticos várzea-grandenses que apoiaram Pivetta e demonstrando uma virada de chave nas forças de influência no município. A nomeação antes do período de escolha da lista dos 15 nomes ajudou Breno a conseguir uma melhor pontuação, até figurar nos nomes encaminhados ao governador.

O tenente-coronel Fábio Mota de Souza também é figura proeminente na disputa. Mota é visto como próximo do deputado estadual Diego Guimarães (Republicanos) por ter comandado a região de Peixoto de Azevedo e Guarantã do Norte, território eleitoral de Diego. O jovem parlamentar é aliado de primeira ordem de Pivetta e conhecido por confidenciar ao governador informações importantes sobre a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT).

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Esta conexão geográfica também funciona para o tenente-coronel Paulo Jailson Sechi, que comanda a PM em Nova Mutum, com atuação em Lucas do Rio Verde, berço político do governador Pivetta. O posto deve alçar Sechi como um dos favoritos para ser escolhido pelo governador.

Outro com chances de figurar na lista dos cinco é o tenente-coronel Fábio Alves Ribeiro, comandante do Batalhão de Rondas Ostensivas Tático Móvel, a Rotam. Fábio também é frequentador da Igreja Adventista, de onde pode obter apoio político em sua jornada pela patente de coronel. Em evento recente, Fábio entregou uma medalha para o advogado Rodrigo Cyrineu, advogado eleitoral do ex-governador Mauro Mendes (União).

A tenente-coronel Nagila de Moura Brandão também figura como favorita, de acordo com fontes ouvidas pela reportagem. A militar atuava como secretária-adjunta na Secretaria de Estado de Educação, pasta com influência de Pivetta, mas foi redirecionada para o 9º Batalhão, em um movimento lido como reorganização estrutural que deu maior “teor operacional” para a militar. Nagila atuou como coordenadora das Escolas Militares na Secretaria de Estado de Educação e desde abril deste ano comanda um batalhão responsável pela proteção de áreas do Tijucal e da região do Coxipó.

A cerimônia de promoção está marcada para o dia 3 de setembro, às 18h30, na Arena Pantanal, em Cuiabá.  De acordo com o boletim da PMMT publicado no dia 20 de agosto, 15 oficiais concorrem ao posto de coronel:

  1. Adão Cesar Rodrigues Silva – Nota: 5,34
  2. Paulo Jailson Secchi de Avila – Nota: 5,337
  3. Murilo Franco de Miranda – Nota: 5,327
  4. Fabio Alves Ribeiro – Nota: 5,32
  5. Oswaldo Marins Rabelo – Nota: 5,29
  6. Cleiton de Moura Viana – Nota: 5,263
  7. Breno Chaves Nogueira – Nota: 5,258
  8. Nagila de Moura Brandao – Nota: 5,256
  9. Fabio Mota de Souza – Nota: 5,253
  10. Victor Lúcio do Prado – Nota: 5,252
  11. Adonival Coelho de Souza Junior – Nota: 5,244
  12. Bruno Marcel Souza Tocantins – Nota: 5,235
  13. Gyancarlos Paglyneari Cabelho – Nota: 5,233
  14. Jussara Cristina Novacki – Nota: 5,063
  15. Marcelo Moraes de Souza – Nota: 4,87

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