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ARTIGO

Existe, de fato, um livre-arbítrio?

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Parece mais confortável alegar a favor da existência de um livre-arbítrio consciente, uma vez que o próprio indivíduo tem necessidades e desejos específicos que nem sempre coincidem entre seus semelhantes. As demandas mais básicas de subsistência como fome e socialização, por exemplo, tendem a coincidir. Já as mais subjetivas, como preferências alimentares e estéticas, tendem a ser mais particulares e diversificadas. De qualquer forma, observar o que move o homem não é suficiente para analisar sua capacidade de verdadeiramente tomar decisões.

Livre-arbítrio significa a capacidade do indivíduo de decidir consciente entre um conjunto de alternativas. A maior dificuldade surge na tentativa de delimitar o conceito de consciente. Seria preciso ter a informação completa sobre todas as alternativas e um discernimento absoluto entre elas para que se pudesse embasar a existência de escolhas livres, o que é pouco provável frente à limitação humana. Por outro lado, seria possível defender um livre-arbítrio incompleto, aquele que permite um certo nível de avaliação, mas é altamente influenciado pelas experiências passadas e pela memória genética do indivíduo.

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O livre-arbítrio pleno poderia significar, por exemplo, ser capaz de escolher sem qualquer influência de traumas de infância. Além disso, seria possível decidir genuinamente com sua própria utilidade lógica atribuída sem qualquer estímulo social, publicitário ou emocional. A ideia de um arbítrio incompleto aceita melhor as emoções humanas, principalmente numa era na qual os algoritmos dividem com os fatores hormonais os direcionamentos das ações. Decisões como começar um relacionamento ou visitar o novo restaurante da cidade são altamente associadas às publicações digitais que reforçam as ondas de dopamina.

Para uma geração que se sente pressionada pelos sonhos de prosperidade, vínculos saudáveis e tempo de qualidade, os gatilhos de entretenimento das redes sociais podem anestesiar essa dor. Ao mesmo tempo que anestesiam, eles formam novas experiências que provocam novas decisões. Entretanto, isso não é uma novidade da era digital, é apenas uma evidência moderna sobre como é difícil provar que as pessoas são, de fato, livres para ponderar e decidir sobre qualquer coisa. Uma possibilidade de se observar a realidade com menor interferência das próprias experiências é pela prática da meditação.

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Meditadores experientes, como monges budistas, alcançam experiências intrigantes sobre a volatilidade e a interdependência dos fenômenos. Eles não apenas questionam os próprios desejos como também a existência de um “eu” que decide. E, dessa forma, alegam conseguir a diminuição do sofrimento nessa vida. Talvez, a conclusão mais relevante não seja necessariamente provar a existência ou não-existência de um livre-arbítrio. Mas entender que um dos componentes que fazem o homem sofrer é a necessidade de defender a sua própria capacidade de decidir. Talvez a verdadeira liberdade não esteja em provar a própria liberdade de escolha, mas em escolher ciente das próprias limitações.

Fernando Cunha é escritor e autor do livro “O Dilema do Basilisco”, que reflete sobre os dilemas humanos perante o avanço tecnológico

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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