Pesquisar
Close this search box.
ARTIGO

Mato Grosso: o Rei da Soja em Xeque-Mate

A ofensiva chinesa na soja africana já em curso e o que ela significa para Mato Grosso.

Publicidade

A China mudou as regras do comércio global de soja. E Mato Grosso, maior produtor brasileiro do grão, já está sentindo o impacto em 2026.

Durante duas décadas, o país asiático dependeu quase que exclusivamente do Brasil e dos Estados Unidos para abastecer sua demanda por soja, usada principalmente na ração de suínos e aves. Agora, dentro do Plano Quinquenal 2026-2030, Pequim colocou a “segurança alimentar” no centro da estratégia. O objetivo declarado é reduzir a dependência externa e ter controle direto sobre a origem dos alimentos. A África é a peça central desse plano e ele já está em execução.

O movimento saiu do papel em maio. Desde 1º de maio de 2026, a China aplica tarifa zero para 100% dos produtos de 53 países africanos. No mesmo pacote, Pequim já está importando soja diretamente da Tanzânia, algo que até 2025 não fazia parte da matriz de fornecimento chinesa.

Mas a tarifa é só uma parte. O investimento real está na terra e já opera. A estatal CITIC Construction aplicou US$ 250 milhões numa primeira fase de produção de milho e soja em Angola. A empresa já cultiva 3.000 hectares no Cuanza Sul e 5.000 hectares em Malanje, com meta de chegar a 100 mil hectares. Outra gigante, a Sinohydro, aportou mais de US$ 100 milhões no programa Planagrão angolano, com direito a 25 anos de exploração de terra sem impostos.

Em Moçambique, o Fundo de Desenvolvimento China-África, o CADFund, de US$ 10 bilhões, financia o Wanbao Mozambique Agricultural Project, nas margens do Rio Limpopo. Técnicos chineses introduziram técnicas modernas de cultivo de arroz e dobraram a produtividade local. O modelo está sendo replicado para grãos. Em 2024, o Projeto Ponte África, com apoio do governo de Shandong, levou especialistas agrícolas para treinar produtores moçambicanos e ampliar a capacidade produtiva do país.

Leia Também:  A Dignidade Humana e a Escravidão do Trabalhador

O CADFund, criado em 2006, já atua em 39 países africanos e mobilizou mais de US$ 32 bilhões em investimentos de empresas chinesas no continente.

Tudo isso está alinhado ao 15º Plano Quinquenal da China, 2026-2030, que começou neste ano. O documento estabelece três metas que atingem diretamente o agronegócio brasileiro. A primeira é a autossuficiência em grãos básicos como arroz, trigo e milho. A segunda é a diversificação de fornecedores de soja, com a meta de reduzir a participação de Brasil e EUA de mais de 80% para menos de 60% até 2030. A terceira é o controle da cadeia, da fazenda ao porto, por meio de investimentos em terra, ferrovias e infraestrutura portuária na África.

Pequim já havia sinalizado a estratégia em 2018, quando Xi Jinping prometeu US$ 60 bilhões para a África, incluindo US$ 10 bilhões para investimento de empresas chinesas. O plano quinquenal atual é a execução desse compromisso, e os primeiros resultados aparecem agora.

Para Mato Grosso, o cenário tem consequências diretas e imediatas. O estado responde por mais de 28% de toda a soja produzida no Brasil e é o elo mais dependente da demanda chinesa. A entrada da soja africana no mercado chinês com tarifa zero cria uma vantagem de preço de 8% a 12% em relação à soja brasileira, só em tributo.

Leia Também:  Quando ninguém percebe mais o que faz

Além disso, a China está financiando corredores logísticos no Atlântico africano. Ferrovias e portos em Angola e Moçambique estão sendo estruturados para escoar a produção diretamente para a China, encurtando rotas e reduzindo custos de frete. À medida que esses projetos avançam, a vantagem logística que Mato Grosso tem pelo Porto de Santos perde peso na conta final.

O quadro se completa com a preferência comercial. Empresas estatais chinesas priorizam compras de países onde o capital chinês tem participação acionária e controle operacional. Isso reduz o espaço para contratos de longo prazo com o Brasil, que passa a ser tratado como um fornecedor de mercado spot, sujeito à variação de preço.

Em 2024, a China importou mais de 100 milhões de toneladas de soja. Desse total, mais de 70% vieram do Brasil. O Plano 2026-2030 foi desenhado para mudar essa fotografia a partir de agora.

A disputa agora não é mais apenas por produtividade no campo mato-grossense. É por quem vai dominar a origem da soja que alimenta 1,4 bilhão de chineses nesta década. E a China já está plantando, colhendo e exportando da África com vantagem tributária desde maio de 2026.

José Antônio Borges Pereira é Procurador de Justiça do Estado de Mato Grosso e titular da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

COMENTE ABAIXO:

Compartilhe essa Notícia

Publicidade

Publicidade

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com o Deputado Estadual Wilson Santos

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com Valdinei Mauro de Souza