Pesquisar
Close this search box.
COMUNICAÇÃO E PODER

O negócio das plataformas: lucrar com conteúdo viciante e incitamento à raiva

Publicidade

A editora-chefe do jornal britânico The Guardian, Katharine Viner, publicou nesta quarta-feira (06.05) um artigo que é uma leitura obrigatória para políticos, jornalistas e pesquisadores de comunicação. Intitulado “Como sobreviver à crise da informação: “Antes falávamos de notícias falsas – agora a própria realidade parece falsa”.

Destaco aqui alguns pontos que considero relevantes para o debate sobre o contexto contemporâneo da sociedade midiatizada e do nosso papel, dos jornalistas e do jornalismo, dos pesquisadores e da academia, diante dos desafios postos pela mercantilização do mundo da vida digital e do modelo de negócios concentrados nas mãos das chamadas Big Techs.

O PODER QUE CORRÓI A DEMOCRACIA

Há trinta anos, Toni Morrison alertou para um futuro em que o mercado engoliria a sociedade. Quando “a comercialização da vida estiver completa”, escreveu ela, “nos veremos vivendo não em uma nação, mas em um consórcio de indústrias, e totalmente ininteligíveis para nós mesmos, exceto pelo que vemos através de uma tela escura”. Através de uma tela escura. Uma expressão para os nossos tempos.

Não é por acaso que as grandes empresas de tecnologia são dirigidas por uma pequena parcela da humanidade: homens ricos, em sua grande maioria residentes na costa oeste dos EUA. Essas empresas almejam lucros exorbitantes e têm pouca consideração pelo bem público. A maioria não hesita em bajular demagogos se isso for bom para os negócios. Elon Musk chegou a fazer parte do governo Trump, cortando gastos públicos e desmantelando a USAID. Hoje, Musk passa grande parte do tempo publicando teorias da conspiração nativistas para seus quase 240 milhões de seguidores na plataforma de mídia social que ele controla e que foi projetada para promover conflitos e extremismo (uma das muitas razões pelas quais o Guardian, como instituição, deixou de publicar X em 2024).

A INTERNET PROJETADA COMO NEGÓCIO ANTI-HUMANISTA

Hoje em dia, não é nenhuma controvérsia notar que grande parte da tecnologia digital parece projetada para gerar conflito, para priorizar a mentira em detrimento da verdade. Em vez de revelar o melhor da natureza humana, parece concebida para alimentar o pior em nós. Como afirma o crítico de tecnologia Jacob Silverman: “A internet atual não foi realmente projetada para nós, mas sim para provocar certas reações que são hostis ao florescimento humano”.

Leia Também:  Pivetta quer doar área de R$ 8 milhões para entidade privada ligada ao MPE

Se a tecnologia digital é projetada para provocar certas reações em nós, a principal delas é uma espécie de atenção entorpecida. Como muitos já disseram, toda uma geração de mentes brilhantes dedicou suas vidas profissionais a fazer com que você passasse um pouco mais de tempo em seus aplicativos, em vez de construir uma sociedade melhor, tudo em nome da maximização dos lucros corporativos.

O PAPEL DO JORNALISMO

Jornalismo não é um “negócio de conteúdo”. Que ninguém use esse termo ao falar de jornalismo de interesse público! Não, ele faz parte da nossa infraestrutura cívica compartilhada, da nossa infraestrutura humana, da nossa infraestrutura social. É o tecido conjuntivo que ajuda a combater o isolamento e sustenta a democracia. Parte do seu papel, para citar Naomi Klein e Astra Taylor, deveria ser o de contrapor as “narrativas apocalípticas com uma história muito melhor sobre como sobreviver aos tempos difíceis que virão sem deixar ninguém para trás”.

JORNALISMO DE AFETOS

Ao fim e ao cabo, destaco a experiência que vem sendo colocada em prática pelo PNB com o Jornalismo de Afetos. Para além do papel do Jornalismo de investigação, de mostrar os malfeitos dos governantes, o PNB também preza por um Jornalismo que promove o afeto, o gesto de reconhecimento do outro e das relações de amizade e respeito em uma comunidade.

O Jornalismo de Afetos é, portanto, uma proposta editorial e metodológica adotada pelo site PNB Online. Essa abordagem busca romper com a frieza do jornalismo puramente factual e distanciado, focando na humanização das narrativas e no impacto emocional das histórias na comunidade.

Leia Também:  TCE-MT manda suspender contrato de R$ 133 milhões para obra na BR-163

Os eixos que definem essa prática jornalística:

  1. Humanização e Empatia

Diferente da cobertura tradicional que foca prioritariamente em números, dados oficiais ou declarações de autoridades, o jornalismo de afetos coloca as pessoas e suas vivências no centro. A ideia é tratar o entrevistado não apenas como uma “fonte”, mas como um sujeito dotado de sentimentos e história.

  1. Proximidade com o Leitor

O conceito busca criar um vínculo de confiança e identificação entre o portal e o público. No contexto do PNB Online, isso se traduz em dar voz a personagens locais, valorizar a cultura regional e tratar de temas que tocam o cotidiano e a identidade do cidadão mato-grossense.

  1. Ética do Cuidado

Inspirado por discussões teóricas sobre a comunicação, esse modelo propõe uma “ética do cuidado”. Isso significa:

Sensibilidade: evitar o sensacionalismo em tragédias.

Escuta Ativa: Dar tempo para que as histórias sejam contadas em sua complexidade.

Responsabilidade Social: Entender que a notícia tem o poder de mobilizar afetos (solidariedade, indignação, esperança) e usar isso para fortalecer o tecido social.

  1. Resistência ao Algoritmo

Em um cenário de “jornalismo de cliques” e polarização digital, o jornalismo de afetos atua como uma forma de resistência. Ao focar em histórias profundas e singulares, ele privilegia a qualidade do vínculo em vez da velocidade desenfreada da informação.

Contexto Teórico

Vale notar que essa prática dialoga com conceitos da fenomenologia, do pragmatismo e da comunicação como compartilhamento (comum-unicação). Ela entende que o jornalismo não serve apenas para “informar”, mas para ajudar as pessoas a se reconhecerem umas nas outras, promovendo o que o próprio portal frequentemente descreve como um jornalismo que “pulsa” com Cuiabá e Mato Grosso.

*Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e Doutor em Comunicação pela UFMG.

COMENTE ABAIXO:

Compartilhe essa Notícia

Publicidade

Publicidade

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com o Deputado Estadual Wilson Santos

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com Valdinei Mauro de Souza