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ARTIGO

O perigo do fundamentalismo, neoliberalismo e autoritarismo

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A imagem de Nossa Senhora Aparecida encontrada quebrada junto à Cruz do Chilão, em Cuiabá, exige investigação, respeito e prudência.

Sem autoria e motivação esclarecidas, o episódio não pode ser transformado em prova automática de intolerância religiosa ou de qualquer articulação política.

Mas ele permite discutir um fenômeno muito mais amplo: o uso contemporâneo da religião como elemento de projetos de poder.

Nas últimas décadas, pesquisadores têm estudado a aproximação entre setores religiosos conservadores, movimentos da direita radical e programas econômicos neoliberais.

No Brasil, essa convergência tornou-se especialmente visível no bolsonarismo, que parte da literatura acadêmica descreve como combinação de conservadorismo social, autoritarismo político e neoliberalismo econômico.

Isso não significa que conservadores, empresários ou evangélicos constituam um bloco homogêneo; significa reconhecer alianças concretas entre grupos com interesses distintos.

É justamente aí que entra a chamada Teologia do Domínio.

O conceito abrange diferentes correntes surgidas principalmente no evangelicalismo norte-americano e associadas à ideia de que cristãos devem conquistar posições estratégicas na política, economia, comunicação, educação, cultura e outras esferas sociais.

Pesquisadores brasileiros têm utilizado essa categoria para interpretar parte da aproximação entre grandes lideranças evangélicas e o bolsonarismo.

A existência desse pensamento, entretanto, não autoriza identificar o conjunto dos evangélicos com ele: o universo protestante brasileiro é teológica e politicamente plural.

A diferença é fundamental. Uma coisa é o cidadão religioso participar democraticamente da política, defender seus valores e disputar eleições.

Outra é conceber o Estado como território a ser conquistado para transformar determinada interpretação religiosa em norma geral de uma sociedade plural.

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Quando essa lógica se associa à extrema direita, a religião pode deixar de funcionar apenas como experiência espiritual e passar a fornecer uma linguagem política poderosa: bem contra mal, escolhidos contra inimigos, salvação contra perdição.

Questões públicas complexas são convertidas em batalhas morais absolutas, reduzindo o espaço da negociação democrática.

Paralelamente, ocorre outra transformação.

Enquanto milhões de pessoas são mobilizadas pelas chamadas guerras culturais, decisões sobre juros, tributação, privatizações, relações trabalhistas, orçamento público, desigualdade e distribuição da riqueza permanecem muito menos acessíveis ao debate cotidiano.

Parte da literatura chama de neoliberalismo autoritário a combinação entre políticas orientadas para a expansão das relações de mercado e mecanismos que afastam determinadas decisões econômicas da contestação democrática, acompanhados, em algumas experiências, de repressão a movimentos sociais, construção de inimigos internos e enfraquecimento das formas coletivas de participação.

É nesse ponto que religião, extrema direita e determinados interesses econômicos podem se tornar complementares sem que seja necessário imaginar uma conspiração centralizada.

Cada grupo pode buscar algo diferente.

Lideranças religiosas obtêm influência política e institucional.

Movimentos autoritários recebem identidade coletiva, capilaridade social e capacidade de mobilização.

Setores empresariais e financeiros podem apoiar programas favoráveis à desregulação, privatização, redução da atuação estatal ou proteção de determinados interesses patrimoniais.

A guerra moral pode, nesse contexto, deslocar a atenção da disputa distributiva.

O trabalhador angustiado com salário, dívida, moradia ou emprego passa a ser convocado a enxergar outro cidadão como principal ameaça: o adversário político, a religião diferente, uma minoria, um professor, um artista ou qualquer grupo apresentado como inimigo dos seus valores.

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Problemas econômicos estruturais podem ser reinterpretados como conflitos predominantemente culturais.

É também nesse debate que surge a palavra fascismo. Ela precisa ser usada com precisão.

Pesquisadores divergem sobre sua aplicação às direitas contemporâneas: alguns identificam processos de fascistização ou elementos neofascistas; outros preferem conceitos como direita radical, populismo autoritário ou neoliberalismo autoritário.

Mais importante que o rótulo é observar comportamentos concretos: hostilidade ao pluralismo, transformação sistemática do adversário em inimigo, tentativa de subordinar instituições, intolerância diante da diversidade e utilização permanente do medo como instrumento político.

E é justamente aí que a liberdade religiosa assume importância decisiva.

Defender Nossa Senhora Aparecida pressupõe defender igualmente uma igreja evangélica, um terreiro de candomblé, uma sinagoga, uma mesquita ou qualquer outra manifestação legítima de fé contra violência e perseguição.

O Estado laico não elimina a religião. Ele impede que uma crença utilize o poder estatal para subordinar as demais.

A questão central, portanto, não é fé contra política, nem religião contra mercado.

É saber quais limites uma democracia estabelece quando poder econômico, poder político e autoridade religiosa começam a se reforçar mutuamente.

Porque nenhuma sociedade plural permanece plenamente democrática quando alguém pretende reunir, nas mesmas mãos, o monopólio da verdade, da fé, do dinheiro e do poder.

Paulo Lemos é advogado em Cuiabá/MT

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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