O senador Flávio Bolsonaro, candidato à presidência da República, se descreve como patriota. Apesar disso, afirmou recentemente, numa reunião do CPAC (Conferência de Ação Política Conservador, em português), que, se eleito, facilitará aos EUA a exploração das chamadas terras raras (reservas de um grupo de 17 elementos químicos essenciais para produção de smartphones, carros elétricos e chips, entre outros). Trocando em miúdos: vende-se a galinha dos ovos de ouro ao “parceiro” do norte (por um preço camarada, já que são “amigos), para depois comprar os ovos pelo preço por eles imposto.
A bondade com o chapéu alheio (subsolo e estatais são bens públicos, portanto da sociedade) vai além. Já havia afirmado que retomará as privatizações. Lembrando: no governo de seu pai, empresas fundamentais foram vendidas para a iniciativa privada, como a Eletrobrás, Liquigás e BR Distribuidora, esta última para a Vibra Energia, que, dizem os noticiários, não repassou as duas reduções do preço da gasolina, feitas pela Petrobrás, para suas bombas.
Esse processo vem de longa data, mas privatizações em alta escala começaram nos anos de 1990, no Governo Collor. Pelo Programa Nacional de Desestatização, vendeu 18 empresas. Entre elas, a Usiminas, Siderúrgica do Tubarão e Aços Finos Piratini. Número ínfimo, se comparado ao sucessor de seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso. Em seus oito anos de governo, repassou à iniciativa privada, após um périplo pelo mundo à procura de compradores, 91 empresas federais. Entre elas, a Vale (já naquela época uma grande mineradora e maior produtora e exportadora de minério de ferro do mundo), Cia Siderúrgica Nacional, Embratel e o Sistema Telebrás, entre as mais conhecidas dos brasileiros.
Sem entrar o mérito sobre o clima político da época, é bom lembrar da ampla campanha midiática de desmoralização destas estatais, associando-as à ineficiência. Venderam a imagem de que, no futuro, haveria mais eficiência e uma grande geração novos empregos. Não vingou. Sobre a decantada eficiência: segundo o jornalista e escritor Palmério Dória (1948-2023), em seu livro O Príncipe da Privataria, entre 2005 e 2011, houve mais de 40 explosões de bueiros no Rio de Janeiro. Um dos motivos: os diretores da Light privatizada, “demitiram quem sabia onde podia explodir”. Sobre a geração de novos empregos: os compradores se preocuparam mesmo foi com a redução de custos e, nestes casos, a primeira vítima é o trabalhador. Segundo a IA, entre 1990 e 1990 (governos Collor, Itamar e FHC) centenas de milhares de empregos foram extintos.
Qualquer semelhança com Enel, que adquiriu recentemente a Eletropaulo e reduziu seu quadro de funcionários de 23.835 para 15.366, segundo matéria de novembro de 2023 do Brasil de Fato, não é mera coincidência. A meta, parece, é o lucro maquiavélico. Não importa os meios, apenas os resultados. Como se dizia nas partidas de futebol da minha infância: “só vale do pescoço pra baixo”.
Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista

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