
O Escândalo da Oi, a denúncia de corrupção envolvendo o desvio de 308 milhões de reais de dinheiro público para fundos ligados a familiares e aliados no governo do estado, ganhou tração nas redes sociais por conta de uma expressão cuiabana para inquirir os suspeitos do esquema: “panhô ou não panhô”? A expressão é fascinante, uma contração fonética de “apanhou”. No linguajar cuiabano, o “apanhar” não é apenas o ato de sofrer uma agressão, mas o ato de colher ou pegar algo rapidamente. É o primo direto do “surrupiou” ou do “surripiou“, usado em outras partes do interior do Brasil.
Panhô ou não Panhô, em óbvio, não “normaliza” a corrupção em Mato Grosso. Ao contrário, é uma forma da população lidar com a indignação em relação a um caso que está bem longe ainda de estar concluído. Há muito o que investigar e os políticos envolvidos devem, ainda, muitas explicações. As perguntas que não querem calar: como pode ser “normal” um negócio público se transformar em negócio particular? Como o dinheiro do povo de Mato Grosso foi parar nos fundos ligados a meia dúzia de bacanas?
SOCIOLOGIA DO ROUBO DO DINHEIRO PÚBLICO
O vocabulário brasileiro para a corrupção é quase tão vasto quanto o território nacional, variando entre o humor ácido e a indignação. Enquanto o “panhô” é uma digital linguística muito específica de Cuiabá e do linguajar cuiabano (o “tchapa e cruz”), o restante do Brasil utiliza uma série de termos que mudam conforme a região.
Nesta exploração de uma certa sociologia do roubo do dinheiro público, aqui estão outras expressões populares mais comuns para tratar desse assunto;
- No Nordeste
O Nordeste tem um repertório muito rico, muitas vezes associando o roubo à agilidade manual ou a animais.
Meteu a mão: A mais clássica. Significa que o político não apenas pegou, mas agiu com voracidade.
Levou no rastro: Quando o desvio é feito de forma que parece “limpa”, mas deixou o prejuízo.
Fazer uma “magoada”: Em algumas regiões, refere-se a tirar uma parte indevida de um montante.
Botar no bolso: Comum para propinas ou desvios menores.
Sangrar os cofres: Usado quando o roubo é contínuo e exauri os recursos de uma prefeitura ou estado.
- No Sul
No Sul, as expressões costumam ser mais diretas, muitas vezes focadas na ideia de levar vantagem ou de “limpar” o que pertence ao público.
Limpar o tacho: Significa que o político não deixou sobrar nada do orçamento.
Garfou: Uma expressão muito usada no Rio Grande do Sul e Santa Catarina para dizer que alguém tirou uma “garfada” (uma parte considerável) do dinheiro público.
Passar o rodo: Quando o desvio é amplo e atinge vários setores.
Meteu o cano: No sentido de dar um prejuízo ou aplicar um golpe financeiro na administração.
- Expressões Nacionais (Ouro da Casa)
Estas são entendidas de Norte a Sul e aparecem tanto na mesa do bar quanto nos telejornais:
Rouba, mas faz: O famigerado lema político brasileiro que virou expressão popular para definir o gestor corrupto, mas eficiente em obras.
Rachadinha: O termo da moda para o desvio de salários de assessores.
Caixa dois: O clássico dos recursos não contabilizados.
Molhar a mão: Especificamente para o ato de pagar ou receber propina (o suborno).
Esquema: O termo genérico para qualquer sistema organizado de corrupção.
Tungar: Um termo mais antigo, mas ainda muito usado para dizer que alguém foi “roubado” pelo governo ou por um político.
*Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e Doutor em Comunicação pela UFMG.























