Na semana passada, ao saber que Pepe Mujica nos deixou, lembrei-me de uma de suas visitas ao Brasil, quando almoçou num botequim, tipo pé-sujo, e comeu uma rabada. Foi em agosto de 2015, já como senador uruguaio, após uma palestra na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). O escolhido, Bar do José, frequentado por trabalhadores de seu entorno, ficava na Tijuca. Usei o termo ficava, porque é possível localizá-lo no street view do google maps, mas as fotos são de 2017. Numa delas, vê-se, emoldurada na parede, a cópia de uma matéria, de página dupla, uma com texto e a outra estampando a foto de Mujica levando um copo de cerveja à boca e o título “Com o jeitão do povo”.
Não sejamos precipitados e imaginar que “políticos brasileiros não fazem isso”. Fazem, sim. Não com esta frequência, mas fazem. O problema está na agenda. Sempre muito apertada, se justificam. Para isso, reservam um período, a cada dois anos. E aí aproveitam para pedir seus votinhos. Por que não juntar a fome à vontade de comer e degustar um pastel de ar aqui, um espetinho de gato acolá? Naturalmente, há as exceções. Raras, mas há. Sempre hão de existir.
Voltemos a Mujica. Ex-guerrilheiro Tupamaro, passou 14 anos preso, dos quais 10 em uma solitária, tornou um político da mais alta qualidade, tanto por seu modo simples de ser, quanto por sua habilidade política. Não é todo dia que um esquerdista consegue liderar uma frente ampla, como ele o fez. Sem contar que em apenas cinco anos de seu mandato como presidente da República Uruguaia, entre 2010 e 2015, aprovou leis bem desagradáveis aos defensores da tradição, da família e da propriedade, por aqui chamados “cidadãos de bem”.
Entre elas, pode-se destacar a descriminalização do aborto, a legalização do consumo de maconha, do casamento de pessoas do mesmo sexo e o fortalecimento dos sindicatos, cuja consequência foi o aumento do salário-mínimo. Hoje, mesmo com um custo de vida superior ao do brasileiro, entre 60 e 65%, o poder de compra do uruguaio é maior. Seu salário atual, de 23.604 pesos, equivale a R$ 3.304,56.
Por algumas de suas frases, que se tornaram famosas, é possível perceber, e aprender, que para defender uma causa, basta ser claro. Como no caso da maconha: “O que me assusta é o narcotráfico, não a droga. E, pela via repressiva, é uma guerra perdida. Está sendo perdida em todos os lugares”. Ou no caso do aborto: “Legalizando e intervindo, é possível conseguir que muitas mulheres voltem atrás em sua decisão, sobretudo as mais humildes”. Ou sobre sua própria vida: “Tive que aguentar 14 anos em cana. (…) Nas noites que me davam colchão, eu me sentia confortável, aprendi que se você não pode ser feliz com poucas coisas, você não vai ser feliz com muitas coisas (…)”.
Que novos “pepe mujicas” substituam o que se foi e se multipliquem mundo afora. Oxalá!
Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista.
























