Quem conheceu de perto Joãozinho, já deu boas risadas com ele e dele. Na roda de baralho, na roda do Cururu, nos bailes, na dança do siriri, nas pescarias, nos encontros da Igreja, nos torneios de futebol. Aliás, Joãozinho soube valorizar o prazer do bom humor, a paixão pelo futebol e a valorização da nossa cultura popular. Era um dos poucos jovens que cantava cururu. E, sabia como ninguém ser capelão, tirar as rezas cantadas nas festas de santo. E, soube recentemente que ele era o único que sabia rezar uma oração que o seu avô Pedro Maria lhe ensinou. E, devemos agradecer a inteligência que Deus lhe deu porque quando era catequizando estudou e aprendeu os ensinamentos deixado pelo saudoso Padre Joaquim. A ponto de entrar no debate de perguntas e respostas para vê quem sabia mais sobre o catecismo. Joaozinho soube. Com isso, a comunidade do Barreirinho ganhou de presente a padroeira Santa Terezinha do menino Jesus.
Daí se explica o valor da sua sabedoria, de guardar tanta coisa na sua memória, sem peso, apenas para transmitir conhecimento. E, ele se desafiou a conhecer. Estudou na escola rural e retornou à sala de aula depois de adulto, na EJA. João de Deus, 56 anos, dizia que gostava de estudar, principalmente matemática. Falava com orgulho que resolvia as equações e questões antes dos colegas e os professores o incentivam pedindo para ele auxiliar os demais que não tinham a mesma habilidade. Uma sabedoria admirável.
Joaozinho não tinha pressa. Tinha paciência. E, cada vez mais precisamos dessa paciência. Quantas vezes, Joãozinho sentava na mureta da área da casa para contar as histórias, com detalhes, com sentimento e imitando o autor da história. Hoje podemos revelar porque certamente ele já encontrou com o Sr. Jacinto, ele, foi o melhor imitador e a gente acompanhava as histórias envolvidas com cada situação. Ele imitava o avô dele, Pedro Maria parecia que a pessoa estava ali presente também. Ele imitava, vovó Amâncio rindo, e, no momento era um alívio sentir a presença de um ente querido por perto.
Lembramos das piadas rápidas, das risadas altas e da capacidade de transformar qualquer dia comum em algo especial, e, vez ou outra, ele também pegava no pé de alguém. Ele sabia como ninguém fazer com que todos se sentissem à vontade, como se a vida fosse mais divertida e colorida com ele por perto. Certamente, Joãozinho era uma das pessoas que foi o centro das atenções, com sua inteligência e perspicácia.
Hoje, nós queremos prestar as homenagens de alguém que sempre iluminou nossos dias com seu sorriso e bom humor. Joãozinho tinha o dom de fazer qualquer situação mais leve, de arrancar risos até nos momentos mais difíceis. Seu jeito único de ver o mundo, sempre com leveza e alegria, era um presente que ele generosamente compartilhava com todos ao seu redor.
Nos torneios de futebol, ele era o jogador, passou a ser técnico, a ser organizador e incentivador das crianças. Tanto é que no sítio onde ele morou tinha um campo de futebol e ele já deixava tudo preparando a espera dos atletas. Fazia maior esforço para manter acessa a paixão pelo futebol, o grande legado que ele nos deixa é incentivar a prática do esporte, precisamos manter a mente e corpo são. E, conseguimos fazer isso equilibrando a mente e o corpo.
Esse equilíbrio, Joãozinho demonstrou em vida, era trabalhador e também solidário, vendia a produção e também fazia a doação do fruto do seu suor. Tanto é que nesses últimos meses, ele estava colhendo muito maxixo, e, fez uma sacolinha e compartilhou com algumas pessoas. Ele havia combinado com o primo Valfredo, ao retornar de Cáceres, passar pela comunidade rural, que ele ia providenciar banana da terra para saborear, um gesto de partilha, solidariedade e desprendimento.
Joãozinho era acolhedor. Onde via a gente parava para trocar umas ideias e, tempo ele fazia, a conversa poderia ser rápida ou demorada, para ele estava tudo bem. Até no último dia, ele estava empaiando para chegar e receber as homenagens fúnebres. Talvez porque não queria partir ainda, talvez querendo pregar uma peça em todos, mas ele chegou, vimos que foi verdade, que ele partiu sem se despedir, como ele fazia várias vezes. No último arraiá no rancho dos cumpadres, ele desapareceu, sentimos a ausência dele e logo num passe de mágica, tá ele lá, rindo, chorando, cantando e dançando.
Embora a saudade já nos aperta o coração, sabemos que a sua energia continuará viva em nossas lembranças e histórias. Que as risadas que ele nos proporcionou ecoem em nossa memória, e que seu espírito alegre nos inspire a enfrentar a vida com mais leveza e humor.
Eu li numa postagem de Maria Cândida, a partida de Joãozinho é um sonho interrompido. O sonho que ele sonhou, de fato foi interrompido pela imprudência, irresponsabilidade, desumanidade, e, não deu tempo para ele vê seus sobrinhos e filhos dos sobrinhos conquistarem os seus sonhos. Ele torcia para o filho do Gonçalo, com todo esforço ir jogar bola. Ele falava com muito carinho da vaga conquistada pela Taís no Instituto Federal e não deu tempo de ele saber, em vida, que a Beatriz, filha de Félix foi bem no ENEM e já fez a inscrição para conquistar a vaga no ensino superior. Saibamos que agora, ele vai torcer muito lá do alto para que cada um consiga conquistar os seus sonhos.
Outro comentário que recebi numa postagem que fiz nas redes sociais foi “o céu está em festa, ganhou um rezador de primeira”. Sim, perdemos um rezador e sinto muito de ter gravado tantas vezes e agora não consegui encontrar os vídeos. Mas tenho certeza que ele já encontrou tantas pessoas queridas lá no céu. Ontem, 16/01, fez 4 anos que meu pai, Manoel Concizão, nos deixou, sim, ele já tirou o boné da cabeça, reclinou levemente o pescoço, inclinou o joelho e disse: bença padrinho. Já contou o que passou nesse longo tempo por aqui. Já encontrou com vovó Levina, tomaram o guaraná ralado que vovó fazia com tanto carinho para o Joãozinho. Já encontrou com Tio Genú, um pai que ele falava com respeito. Encontrou tio Pedro, vovô Amâncio, minha madrinha Ana, Felipe, tio Satú, Seu Nego e tenho certeza que deu tempo de encontrar com Cian, que nos deixou desse modo trágico, acidente de trânsito, e, que até hoje não conseguimos superar a dor. Eu, lembro que Joãozinho sofreu muito com o episódio do Cian e já puderam se abraçar e conversar.
Vou relatar mais três acontecimentos para vocês entenderem que a nossa homenagem é justa e verdadeira. O fato de ter tanta gente entre sábado e domingo, o velório, demonstra que Joaozinho era uma pessoa querida. O primeiro deles é que no aniversário de 90 anos da professora Patrocina, sua mãe que ensinou tantas pessoas, ele estava muito alegre e convidou a prima Piedade para dançar. Pia, como é carinhosamente conhecida, dançou quase meia hora com ele, sem parar. Ele saiu e disse agora tomei o meu, não aguento mais a minha perna. Ele tinha esse jeito, se colocava na situação, para ri de si mesmo e dispor boas alegrias aos demais.
O outro momento que me marcou muito foi o dia que Jeremias, seu irmão, agendou o jogo de futebol, para passar o som, Leandrinho estava cantando, ele convidou a sua irmã Maria Cândida para dançar. Ela disse vamos. Só estavam os dois na pista, mas parecia que o salão estava lotado de tantas idas e vindas que eles davam. A felicidade dos dois eram visíveis, verdadeiros irmãos. Fraternos. E, sirva de exemplo, fazer em vida e pode ser em pequeno gesto, um simples sim para dançar.
E, o terceiro momento diz respeito a oração, mesmo com alguns goles a mais, ele fazia a reverência como alguém que pede perdão e começava a rezar sem esquecer uma palavra e ficava alterado ou dava uma risadinha quando o público errava nas respostas. Então, para mim, Joãozinho segue na luz, porque conduziu a sua vida pelo Mestre Jesus que é Caminho, Verdade e Vida e quem vai até o Pai, tem a salvação eterna.
Obrigado Joãozinho por nos fazer sorrir, rezar, cantar, dançar e falar de política. Ah, não posso me esquecer de que ele adorava falar da vida política da cidade de Poconé, de Mato Grosso e do Brasil. Foi um eleitor eclético, votava na pessoa. E, dois candidatos que sempre tiveram seu voto foram Ságuas Moraes e Lúdio Cabral, alíás, ele exibia um áudio que Lúdio o enviou agradecendo o voto, mesmo sem conhecer, era um defensor. Nesse ponto, ele sempre me dizia, a gente observa para depois falar. Esse é um ensinamento, às vezes precisamos observar mais para quando a gente se posicionar ser mais certeiro, acertar mais, não magoar as pessoas com respostas ríspidas. Por tudo isso, Joãozinho você será sempre lembrado com carinho e saudade, e a alegria que você trouxe a todos nós da comunidade do Barreirinho, da família, dos amigos e dos poconeanos jamais será esquecida. Com esse breve panorama, retorno a pergunta: você já sorriu com Joaozinho ou de Joaozinho. Se a resposta for sim, teve o privilégio de conhecer uma pessoa simples, humilde e de alto astral. Me despeço com o bordão do próprio Joãozinho, que todos nós conhecemos e aprendemos com ele, MUITO BOM, OBRIGADO!
Cristóvão Domingos de Almeida, professor da UFMT.























