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ARTIGO

Quem tem coragem de perdoar?

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Essa pergunta parece simples, mas revela muito sobre o tempo em que vivemos.

No cotidiano, tornou-se comum assistir a reações intensas diante de qualquer ofensa. Não raro, diante do erro ou da agressão alheia, surgem respostas quase automáticas: “se fosse comigo, eu revidava”, “eu faria pior”, “eu não deixava barato”. Há, socialmente, um incentivo velado (e por vezes explícito) à reação imediata, à resposta dura, à demonstração de força por meio da agressividade.

Friedrich Nietzsche, ao analisar a moral humana, descreve o ressentimento como essa incapacidade de elaborar a ofensa, fazendo com que o sujeito permaneça preso ao que sofreu, reorganizando sua própria identidade a partir da dor (Genealogia da Moral, I). O ressentido não supera, ele acumula, reinterpreta, revive, vive do passado.

Já Sêneca, ao tratar da ira, é ainda mais direto. Indica que a raiva é uma paixão que, uma vez instalada, tende a ultrapassar qualquer medida racional (Ira, Livro I). Para ele, o problema não está apenas no dano causado ao outro, mas na perda de governo sobre si. Aquele que se entrega à ira já não decide, apenas reage.

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Em certos contextos, especialmente entre homens, essa lógica parece ainda mais acentuada. Reagir com violência, verbal ou física, é frequentemente interpretado como sinal de coragem, de firmeza, de honra. Como se conter-se fosse sinônimo de fraqueza.

Mas será mesmo?

É preciso fazer uma distinção fundamental: perdoar não é se submeter. Não é aceitar violência, nem tolerar abusos, tampouco permanecer em situações que ferem a dignidade ou a integridade física e emocional. Perdoar não exclui o afastamento, a imposição de limites ou a ruptura necessária.

Perdoar, em seu sentido mais profundo, é outra coisa.

Entre a submissão e o revide, abre-se um terceiro caminho, menos intuitivo, porém mais exigente, que é o do perdão. Não se trata de ceder, tampouco de contra-atacar, mas de sustentar uma posição que não é determinada pelo gesto do outro. Enquanto a submissão abdica de si e o revide se deixa conduzir pela ofensa, o perdão reorganiza a resposta a partir de um centro próprio. É uma escolha que não ignora o dano, mas se recusa a prolongá-lo internamente, que reconhece o ocorrido, sem permitir que ele dite o que se será a partir dali. Nesse intervalo, entre o impulso de ceder e o impulso de reagir, o perdão se afirma como um exercício raro de autonomia.

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É a capacidade de não permitir que a violência do outro determine a própria resposta. É recusar-se a alimentar, dentro de si, o mesmo impulso que se condena. É interromper o ciclo, não por fraqueza, mas por domínio de si mesmo.

Há uma força silenciosa nesse gesto. Uma força que não se mede em intensidade de reação, mas em capacidade de contenção. Enquanto reagir pode ser imediato, quase instintivo, perdoar exige elaboração, consciência e, sobretudo, coragem.

Porque perdoar, muitas vezes, é abrir mão do direito emocional de revidar.

E isso não é pouco.

Talvez a pergunta inicial precise ser reformulada para: quem consegue sustentar, dentro de si, a decisão de não se tornar aquilo que lhe feriu?

Em um mundo que constantemente estimula a reação, perdoar pode ser um dos atos mais radicais, e mais corajosos, que alguém pode escolher.

Kamila Michiko Teischmann é advogada e mestre em Política Social pela Universidade Federal de Mato Grosso.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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